Estamos de volta! Após breve estadia na Europa, festas juninas e alguns jogos da copa do mundo, voltamos aos trabalhos. Se o Brasil derrotará a Noruega nos campos, só saberemos no domingo, mas você pode distrair sua ansiedade entendendo um pouco mais sobre as músicas da Fifa, o Primavera Sound Barcelona, ou a importânica de Fela Kuti.
Aperte os cintos, vamos voar do Brasil para a Espanha, passar pela Itália para um almoço e depois abastecemos na Nigéria antes de chegarmos ao nosso destino. Vem com a gente?
300Noise vai ao Primavera Sound Barcelona
Se você, atento leitor, já está ciente de nossa aventura musical e gastronômica pela cidade de Nápoles, chegou a hora de ler um relato de um não tão jovem estúdio de comunicação da Zona Norte de SP pelas entranhas do bairro gótico de Barcelona e pelas ondulações de Sant Adrià de Besòs.
A 300Noise orgulhosamente fez parte da programação do Primavera Pro 2026, a conferência do festival que é focada no mercado da música e nas discussões urgentes do setor.
Paineis como The True Cost of “Free”: Fraud, AI, and the Fight for Fair Value. e After the Lawsuits: AI Licensing and the New Rules of Engagement, ambos com curadoria da Unison & Too Young Ltd, trouxeram a Inteligência Artificial e sua regulamentação para o centro do debate.
Por outro lado, a conferência também focou em sobre tópicos mais relacionados a produções culturais periféricas e sua apropriação pelo mercado, como no painel Inclusion or Extractivism? The paradox of the global success of the ‘peripheries’ e trazendo casos como o do painel Gentrification and rebellion at 160 bpm: the soundtrack to ‘Ravalejar’.
Nossa equipe decidiu levar para esse campo de conversas um pensamento que vem guiando nossas decisões nos últimos tempos: a vida além do streaming. Nosso pitching focou no projeto dos pendrives de caminhoneiros e um mapeamento de músicas que circulam fora dos algoritmos. Nessa toada, também não pudemos deixar de comentar sobre o Serviço de Entregas da 300Noise e a circulação de cartas como forma de conectar artistas e ouvintes.
Na sequência, acompanhamos a edição do Primavera Sound Barcelona, com direito a uma experiência um tanto caótica já no primeiro dia. Fortes rajadas de vento e chuva constante causaram o cancelamento parcial das atrações da quinta-feira, 4 de junho.
Amplamente noticiada como tempestade, a chuva não impressionaria frequentadores do Lollapalooza Brasil. O verdadeiro problema enfrentado pela organização foi o vento. A posição dos palcos e a proximidade que o evento tem da praia foram suficientes para acionar um alerta pela segurança do público. Além disso, o palco principal teve parte de sua estrutura derrubada já no começo da noite.
A força dos ventos pode ser percebida em nosso registro do final do show do Geese, pouco antes do palco principal ser evacuado.
Sem dúvidas um evento perder todos os seus headliners do dia é algo grave, porém a verdadeira preocupação está no fato de que cenas como essa serão cada vez mais comuns. Mudanças climáticas já estão transformando o mercado do showbusiness e áreas abertas são as mais vulneráveis.
O festival Solidays 2026, que aconteceria em Paris, foi cancelado devido a uma intensa onda de calor, assim como nos Países Baixos, o festival de música eletrônica Defqon.1 também teve sua edição cancelada.
Também na França, o governo chegou a proibir o consumo de álcool durante a tradicional Fête de la Musique, com termômetros ultrapassando os 40 graus Celsius e a Parada do Orgulho foi adiada para evitar sobrecarregar ainda mais os serviços de emergência.
Katy Perry, após ter seu show cancelado na Bélgica em decorrência do calor extremo, pediu desculpas ao seu público. Joan Jett e B-52 tiveram seus shows cancelados por conta de um tornado. E todos esses exemplos são apenas do último final de semana.
É evidente que os festivais de verão estão passando por profundas transformações para que consigam amenizar os fatores de risco, mas infelizmente ainda não é tão comum acompanharmos o mesmo empenho para amenizar os impactos ambientais causados por esse tipo de evento.
Há algumas maneiras de levantar o astral desse texto para relembrar um excelente show do My Bloody Valentine, conversar sobre o set surpresa da Olivia Rodrigo, pedir atenção para o fantástico show da Sudan Archives que vem para o Balaclava em setembro, ou de torcer por um show de Joey Valence & Brae no Brasil. Mas honestamente, é difícil não refletir sobre a possibilidade real de estarmos todos vendo shows em bunkers daqui alguns anos.
A copa mais musical da história
Quem consegue transformar um evento global em uma nova campanha mirabolante com as mais diversas variedades de produtos? Bem, os Estados Unidos dominam essa técnica e exportam o modelo para diversas regiões do globo. Para além de um intervalo de hidratação que vende cerveja e derivados, o país conseguiu colocar diversas marcas dentro da lógica de uma gravadora.
Se um dia estivemos acostumados com um Waka Waka (ou sua nova reencarnação, Dai Dai) dominando as paradas e estabelecendo uma métrica de ‘hit de copa’, agora estamos pulverizados em zonas de interesse e a indústria se mostra de olho em outra coisa.
Com isso nasce o FIFA Sound, plataforma musical (e otras cocitas mas). Até o momento, já temos um disco com músicas-tema para cada cidade que está sediando jogos da copa e álbum de trilha-sonora oficial, que conta até mesmo com Anitta. A famosa gororoba pra atender tudo e todos.
Se você leu nosso texto sobre o fim do hit de carnaval, você já entendeu onde a gente vai chegar…
A indústria entendeu que não há mais espaço para apostar em apenas um cavalo. Do outro lado, temos uma audiência que está constantemente recebendo uma maré de conteúdo algoritmicamente filtrado. Faz sentido que a Copa tenha músicas diferentes para enredos diferentes e situações adversas.
Essa lógica de estratificação também acaba tendo seus reflexos mais diretos nas campanhas feitas por empresas que pouco tem a ver com música. Estamos falando de versões e canções originais, mas também pensando em públicos e locais distintos.
A Coca-Cola, por exemplo, apostou suas fichas em uma pavorosa versão de Jump (Van Halen) com J Balvin, Travis Barker e Steve Vai. A Buchanan's, empresa de uísque, escalou o Rauw Alejandro para "Dando Vuelas" em um sinal para a comunidade latina dos Estados Unidos. A Adidas mirou no mercado japonês com a Ado.
O Canadá resolveu usar a Copa para lançar o álbum "Perfect Pitch" da Canada Soccer Foundation, uma forma de mostrar cultura local e angariar um apoio nacional pela música. No final das contas, segundo a Chartmetric, a maior parte da audiência do disco não está no Canadá, mas nos Estados Unidos. Bem, até mesmo o Brasil está na frente do Canadá nessa, inclusive.
A conversão pela música é a aposta da vez, mas junto desse balaio marketeiro, estamos vendo um apanhado musical que tenta dialogar com um sentimento nacional através da busca por suas raízes. Uma retomada e tanto para um sentimento que parece estar cada vez mais em alta em um mundo de guerras provocadas por Donald Trump: a autonomia.
Leia mais na matéria da Chartmetric
SAIA DO INSTAGRAM E VÁ:
Assistir Fela Kuti: Music Is The Weapon
Gravado no coração de Lagos no início dos anos 80, este documentário francês de 53 minutos entra na intimidade de Fela Kuti, o lendário criador do Afrobeat e o inimigo número um da ditadura militar nigeriana. Através de entrevistas feitas em sua comunidade independente (a República de Kalakuta) e de performances elétricas e hipnóticas no palco do Afrika Shrine, o filme mostra como Fela transformou o jazz, o funk e os ritmos tradicionais iorubás em um manifesto político vivo.
Ouvir uma seleção de metal Lgbtqiapn+
O metal sempre foi espaço de resistência e pluralidade. Resista a falsa impressão de vincular o gênero ao conservadorismo e aos boomers que vestem uma camiseta do Metallica e ficam repetindo que a música na época deles era melhor. Temos uma seleção especial para você conhecer bandas novas e que estão transformando o metal.
Conhecer o Fanzinet, o acervo de zines italianas dos anos 80.
Nós estamos com hiperfoco em Itália, zines e mapas. Realizamos nosso último encontro no Sesc nessa semana e para continuar nesse tema, recomendamos esse acervo de zines italianas da década de 80. Você pode explorar publicações de todas as regiões da bota mais famosa do mundo e se divertir horrores sem falar uma única palavra no idioma que não existe de verdade.
OUVIR UM SOM
Boards of Canada - Inferno
Um trabalho que remonta toda a discografia de uma das duplas mais cultuadas da música. Em um álbum enigmático, simbólico e até mesmo espiritual. Experiência indescritível, como dizem por aí.
Cicatrizes do Futuro - Deafkids
O Deafkids volta à cena lembrando a todos porque é uma das bandas brasileiras mais importantes da atualidade. De maneira muito única ele consegue reunir todo o sentimento do eletrônico frito, as experimentações psicodélicas e a atitude e energia punk em um único álbum. Um dos melhores do ano com certeza.
Hum of Hurt - Converge
Segundo álbum dos pioneiros do metalcore neste ano é uma paulada na orelha. Talvez um dos mais pesados da discografia da banda, ele trabalha bem a temática do título, um ruído de fundo (uhmmmmm) que nem todas as pessoas escutam. Para quem não conhece talvez tenha materiais mais iniciais, mas para quem já sabe do que se trata o Converge é um prato cheio.
Muse - The Wow! Signal
Quebrando todas as expectativas, o Muse provou que ainda consegue existir em 2026. O décimo disco da banda é de fato interessante. Após uma década de lançamentos completamente esquecíveis, o trio inglês retorna com todos os excessos caricatos, camadas de ópera rock e, pasmem, riffs pesadíssimos em alguns momentos (tem até breakdown). Se você um dia já gostou de Muse, recomendo a audição. Ao restante, melhor passar reto.
Ostraca – Thread
“Poxa a 300Noise não fala sobre os lançamentos de screamo e emoviolence...” Pois tome 35 minutos desse trio estadunidense que bebe muito do post metal. Um dos nomes mais interessantes da atualidade para o gênero.
Ressonance - Acid Arab
Com uma abordagem mais voltada para o tech house, o álbum é uma evolução interessante do Trois de 2023 (que nós também falamos). Sem dúvida é a artista mais interessante da música eletrônica que mistura esses elementos da música árabe. Acho que, como em muitos álbuns de música eletrônica, a apresentação ao vivo é muito mais interessante do que a versão crua de estúdio.
não se esqueça…
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso: temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem a próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 20% off, como dizem os shoppings.
Por fim…
S.A.C. da 300Noise:
Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!
Vocês aceitam envio de material de bandas? Qual a melhor maneira de enviar?
R: Utilizamos o Groover para receber material e oferecemos consultorias e outros trampos. Quer a visão da 300Noise em seu projeto? Entre em contato no 300noise@gmail.com
Onde acesso os projetos da 300noise?
Quer dizer que você trabalham com consultoria e pesquisa para bandas ou empresas?
R: Sim, estamos operando em várias frentes. 300conteúdos, 300empresas, 300festas e em breve 300pendrives (ok, esse é brincadeira!) Quer entender melhor o que oferecemos? Quer contratar a 300noise? Mande um email para 300noise@gmail.com
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