Entre safadeza e poesia: o legado de Marina Lima
Entre censura, tesão e liberdade, celebramos os 70 anos de Marina Lima, que atravessa cinco décadas dando voz ao desejo e à revolução na música brasileira.
Em 45 anos de carreira, Marina Lima entregou grandes hits como Acontecimentos, Virgem, Fullgás e 1 noite e ½”. Sobretudo, se permitiu experimentar e transitar entre a MPB, rock, pop e a música eletrônica, e remexeu o cenário musical com a sua safadeza, cravando o seu lugar como uma das mais relevantes cantoras, compositoras e instrumentistas da música brasileira.
A carioca integra o panteão de cantoras lésbicas e bissexuais essenciais para a construção da MPB que conhecemos hoje. Ao lado de Sandra de Sá, Zizi Possi, Leci Brandão, Angela Rorô, Gal Costa e Maria Bethânia, ela pavimentou esse caminho e iniciou sua carreira como compositora ainda na década de 1970, durante a ditadura cívico-militar, um período em que a sexualidade feminina não era muito celebrada.
Nunca houve espaço para a vergonha, culpa ou repressão nas músicas de Marina. Ela é direta e reta (como uma boa virginiana). Evitando os floreios e não fazendo a mínima questão de esconder sua sexualidade , Marina encontrou seu maior trunfo.
“Será que você será a dama que me completa?
Será que você será o homem que me desperta?”
Não estou bem certa
Afiada, provocativa e muitíssimo bem humorada, ela incorporou em seu repertório músicas como “Mesmo que seja eu” de Erasmo Carlos e ‘Uma Noite e ½” de Renato Rocketh. Canções inicialmente compostas sob uma perspectiva masculina transformadas em hinos sáficos na sua voz.
“Com a força do meu canto
Esquento o seu quarto pra secar seu pranto
Aumenta o rádio
Me dê a mão
Você precisa de um homem pra chamar de seu
Mesmo que esse homem seja eu”
Mesmo que seja eu
“Não demora muito agora
Todas de bundinha de fora
top less na areia
virando sereia
Essa noite eu quero te ter
Toda se ardendo só pra mim”
Uma noite e ½
As provocações com eu-líricos masculinos também são parte essencial de sua parceria com o poeta e irmão Antonio Cícero, com quem escreveu mais de 200 canções, entre elas Fullgás, Virgem, Cícero e Marina e Charme do Mundo. Ao dividirem suas composições, os irmãos brincavam com o duplo sentido e sensualidade de seus eu-líricos, Marina, bissexual e Antonio Cícero, gay, cantavam nos anos 80 sobre outras formas de viver.
Assim, Marina atravessou décadas de censura, repressão e marginalização da comunidade LGBTQIAPN+. Militou em favor dos HIVs positivos na década de 80, enquanto cantava e celebrava o prazer, a paixão e o amor. Marina se apropria do tesão e da safadeza como potência e vitalidade; em sua voz, o desejo é mobilizador e catalisa grandes coisas: você me abre seus braços e a gente faz um país.
Para muitos artistas de 70 anos, ser reconhecido pelo pioneirismo e por um repertório atemporal já seria o suficiente. Mas Marina caminha rumo a cinco décadas de carreira com a mesma coragem e tesão do início. Sem medo de amadurecer ou envelhecer, segue sendo referência para novos artistas e jovens LGBTQIAPN+ desse Brasil. Permanece ativa, curiosa, inventiva e contemporânea sem muito esforço: é amiga de novas artistas como Catto e Pabllo Vittar, faz cover de Billie Elish e Beyoncé, tem fã clube no X e nunca deixou de criticar o conservadorismo.
Em tempos de divas de direita, talvez seja ainda mais importante celebrar artistas como Marina Lima: corajosas, grandiosas, revolucionárias. É fundamental saber diferenciar falsos aliados de artistas verdadeiramente comprometidos e pioneiros como Marina, Angela Rorô e Ney Matogrosso - celebrado neste ano com o lançamento do belíssimo, tesudo e inspirador Homem com H -, cuja trajetória e música carregam a mesma forma bonita de se cantar e viver o desejo.
Para Marina, um obrigada pela inspiração e o desejo de muitos outros anos lindos e bem vividos.
Vida longa e eterna aos artistas que sempre estiveram comprometidos com a defesa de uma vida pela qual vale a pena viver.
Sobre a nossa colaboradora:
Nicoly Adão é estudante de Cinema e Audiovisual, produtora cultural, pesquisadora e a maior fã de Marina Lima de Pirituba.
Recomendações extras de leitura:
Matéria Monkeybuzz
https://monkeybuzz.com.br/materias/5pra1-marina-lima/
Entrevista Scream & Yell
Podcast:





acho q nas refs cabia isso tbm, hem: https://silencionoestudio.com.br/146-especial-marina-lima/ pegamos toda a discografia da diva