Estamos dificultando as coisas de propósito
A ideia de desacelerar nosso consumo virtual contra o algoritmo
Apenas mais três scrolladas antes de dormir. Uma falsa promessa repetida diariamente ao ignorarmos estudos falando sobre os males de usar o celular antes de pegar no sono. A sensação de ver e rever gigabytes de conteúdo de forma passiva é a de desconexão com o próprio tempo.
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Você certamente já reparou na mudança de lógica na entrega de conteúdo dentro das redes. Olhando em retrospecto, saímos de um ambiente controlado (em partes) pelo usuário, com uma timeline composta de contas seguidas, organizadas cronologicamente e agora nos encontramos em uma sopa de interesses pautados por algoritmo, sem tempo, sem ordem (aparente).
O brasileiro passa 9 horas e 13 minutos de tempo médio diário conectado, deste tempo 57,6% é gasto acessado via smarthphones. We Are Social /Meltwaer (2024).
O usuário está inserido em bolhas mutáveis e movidas por algoritmo. Claro, tudo isso é medido por tempo e ação em resposta a uma postagem. Uma pequena derrapada pode transformar sua aba descobrir de maneira gritante. O que tange esse mecanismo é despersonalizar comportamentos. Uma forma de entender comportamentos, mas ignorar variáveis
Estamos sendo alimentados por esteiras de conteúdos infinitos.
A relação de passividade na rede não é só fruto da implementação do algoritmo, ou direcionamento de conteúdos que detém o usuário em consumo compulsivo, mas de uma simplificação nos processos dentro dos ecossistemas virtuais pelo mínimo esforço, ou raciocínio.
Isso vai desde a interface de um produto da Apple até a forma de ouvir música pelo Spotify. Reduzir etapas e minar o controle sobre a forma como o usuário interage, ou escolhe o conteúdo é uma maneira de tirar atenção entre o orgânico e o impulsionado. Perde-se a linha da propaganda e do interesse genuíno.
E isso é valioso para uma reflexão sobre a formação do nosso próprio gosto e consumo dentro e fora da internet. O modo como nos vestimos, a música que ouvimos, a série que assistimos e, claro, os ambientes que frequentamos. O espanto está em alguém ainda estranhar ver as mesmas pessoas nos mesmos lugares, consumindo as mesmas coisas. Como Marcuse já elaborou, “uma falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática prevalece na civilização industrial desenvolvida, um testemunho de progresso técnico”.
No meio desse embrulho, há também a exaustão, o sentimento que toca um pouco de cada indivíduo que gasta um pouco do seu precioso tempo surfando na rede. Através de um toque de nostalgia, ou simulação de uma experiência não vivida (a depender da idade), se intensifica a necessidade de romper a lógica do consumo automatizado. Mas como fazer isso?
As barreiras contra o consumo passivo de conteúdo
O resgate da cybershot pode ser analisado dentro dessa lógica, em um hibrido perfeito entre o mundo físico e o digital. Não é uma fotografia analógica, mas é um objeto que está digitalmente isolado e necessita de uma ponte (ou cabo) para virar um conteúdo nas redes. Indo além, o processo de tirar fotos em um dia e, algum tempo depois subir elas para seu computador, é uma forma de estender o tempo e a relação com o evento fotografado.
As barreiras tecnológicas soam interessantes justamente por validarem o tempo de imersão em processos que entregam um consumo mais profundo e dinâmico. No mundo em que agencias publicitárias fritam miolos para entregar uma ideia ruim maquiada de ‘experiência’, jovens desenterram produtos que mal funcionam para sentir um pingo de vida nos escombros da internet.
Criar conexões em plataformas que prezam a desconexão. Construir espacialidade e cronologia para momentos. Dificultar as ferramentas que acomodaram o usuário ao infinito fluxo de conteúdo esquecível. A briga não é mais contra o algoritmo, desse já entendemos não ser possível ganhar, mas contra o esquecimento.
O escritor tcheco Milan Kundera escreveu em seu livro, A Lentidão que:
“A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem. Ao contrário do motociclista, quem corre a pé está sempre presente em seu corpo, forçado a pensar sempre em suas bolhas, em seu fôlego; quando corre, sente seu peso, sua idade, consciente mais do que nunca de si mesmo e do tempo de sua vida. Tudo muda quando o homem delega a uma máquina a faculdade de ser veloz: a partir de então, seu próprio corpo fica fora do jogo e ele se entrega a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase.”
A internet opera não como uma motocicleta, mas como uma montanha-russa cuja alavanca de aceleração quebrou faz tempo. O livro de Kundera trata, especialmente, sobre o vínculo secreto entre lentidão e memória, entre velocidade e esquecimento. E trabalhamos isso quando colocamos um vinil na agulha, ou escolhemos comprar um rolo de filme para fotografar.
“Por que o prazer da lentidão desapareceu? Ah, para onde foram aqueles que antigamente gostavam de flanar? Onde estão eles, aqueles heróis preguiçosos das canções populares, aqueles vagabundos que vagavam de moinho em moinho e dormiam sob as estrelas?”
A música pode nos ajudar a entender a desaceleração do consumo virtual
A saturação dos streamings não vem de hoje. Diferente do mercado do audiovisual, a indústria da música consegue centralizar todos os catálogos em qualquer plataforma que seja. Tirando pequenas exceções, o ouvinte pode tocar sua banda favorita através do aplicativo que preferir e se contentar com os pequenos extras oferecidos (retrospectiva de fim de ano, qualidade de som, ou design minimalista).
A automatização do algoritmo trabalha para tirar o ouvinte da busca e da descoberta por conta própria e acomodá-lo com seleções (rádios) entregues de maneira instantânea, onde não existe qualquer tipo de transparência quanto a conteúdos impulsionados, ou critério para eleger uma canção a ser indicada.
O outro fator é a quantidade de músicas sendo lançadas diariamente em contraste com a pouca variedade de coisas que caem nos seus ouvidos por acaso. Fica até mesmo difícil ser fisgado por algo novo. E mesmo correndo atrás de seleções curadas pela própria plataforma, a profundidade de um trabalho se perde entre dezenas de singles.
A desaceleração, ou criação de barreiras para frear a velocidade virtual, entram nesse ponto. Afinal, o dilema hoje é: como tornar um lançamento memorável? O que vai criar uma conexão forte o suficiente para que o ouvinte quebre o ciclo vicioso do algoritmo e preste atenção em você?
Na última newsletter falamos sobre o lançamento da ruivinha do paramore que seguiu exatamente essa estratégia. Mas outro trabalho que chamou nossa atenção recentemente foi o proposto por Bruno Berle. Ele vai entregar seu novo disco em um reprodutor de MP3 para uma quantidade limitada de ouvintes. Sem streaming na conta, apenas um processo pensado entre artista e ouvinte.
O que é mais interessante nesse projeto é a forma como ele cria uma conexão entre esses processos manuais, analógicos e que propositalmente complicam a lógica virtual. Além disso, ele também chega em um ponto crucial que movimenta a parte mercadológica dessa ideia toda:
A escassez.
Em 2020 o coletivo de arte MSCHF (aquele das botas do astroboy) comprou uma peça do artista Damien Hirst avaliada em 30 mil dólares. A obra, chamada Several Holes, trazia 88 buracos coloridos, que foram cortados e vendidos individualmente pelo coletivo por 480$ cada. A sobra da arte, contendo a assinatura do artista, foi vendida posteriormente por 260 mil dólares.
O processo do coletivo parte da escassez, vai para a reprodução dela mesma. A ideia não é muito complexa, mas ajuda a compreender que o mercado trabalha na manutenção dessa relação. Multiplicação de escassez através do valor simbólico inserido no produto. Quem comprou um quadradinho da obra por pouco menos de 500 dólares não tardou a revender o objeto por um preço 4 vezes maior no Ebay.
É pensando nisso que os discos de vinil passaram por uma valorização e as câmeras cybershot estão mais caras que nunca. E assim o mercado de streaming segue dormindo tranquilo, sabendo que dificilmente será substituído enquanto tiver massificando seu produto e vendendo seus dados para cobrir as despesas.
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