Misoginia dentro da música
O que as músicas do Top 50 Brasil do Spotify fala sobre as mulheres?
Nos últimos dias, uma discussão se instaurou nas redes. Partindo da premissa de que o funk seria um estilo musical com traços da filosofia red pill, um vídeo buscou mostrar traços misóginos dentro do estilo musical. Por outro lado, muitas respostas a esse vídeo tentaram mostrar que a associação não era factível.
Certamente há uma fragilidade em comparar o funk, ou outros estilos musicais periféricos, com a cultura red pill. Há uma série de diferenças fundamentais entre ambos e, claro, eles estão muito bem apontados no vídeo abaixo:
Porém, há uma discussão relevante em torno do vídeo inicial, e que não deveria ser enquadrada somente dentro do funk, sobre a forma como a produção cultural está diretamente conectada com as mazelas de nossa sociedade. Ou seja, quando falamos sobre misoginia presente dentro de músicas, devemos buscar entender seu contexto e origem.
E para entender em que pé estamos nessa discussão, também é necessário olhar para o consumo musical e vasculhar traços desse problema. Nós somos a 300Noise, um estúdio de comunicção focado em música e cultura, e varremos as 50 músicas mais ouvidas dentro do Spotify Brasil* para buscar por traços de misoginia dentro das letras.
*Dia 09/04/2026
O que esse recorte significa?
O Top 50 Brasil do Spotify não é um recorte utilizado para traduzir consumo musical brasileiro, já que ele deixa de fora outros dados e faixas importantes dentro de outras mídias e meios, como o rádio, o Youtube, etc. Porém, esse ‘chart’ acaba sendo uma forma valiosa de olhar para um consumo digital, focado em plataformas. Um comportamento além do próprio streaming.
Qual é a composição do Top 50 Brasil (semana do dia 09 de abril de 2026)?
Recentemente tratamos sobre o ‘fim’ do gênero musical. A afirmação é ousada, mas a utilizamos para debater um fenômeno que parte do consumo de nichos em plataformas. Em síntese, a música está cada vez mais aglutinando diversos estilos em uma faixa só. Esse fenômeno também foi observado dentro do top 50 e por isso, em alguns casos, faixas foram enquadradas em mais de um estilo musical.
Quais são as temáticas mais presentes nessas músicas?
Embora as músicas de amor (seja sobre se apaixonar ou terminar um relacionamento) ainda estejam dominando paradas de sucesso por aí, é interessante apontar para dois fatores que podem tornar essa análise um pouco “atípica”. Com o lançamento do novo disco do BTS e uma presença massiva da fanbase em prol de streamings, as faixas do grupo seguiram ocupando 1/5 da playlist.
Outro ponto interessante é a presença de músicas sobre traição e sobre festas. Pontos que não necessariamente estão desconectados, mas que trazem uma dinâmica que se relaciona bem com aspectos misóginos. Seja através de comportamentos culturalmente normalizados dentro da sociedade, ou até mesmo exaltados, reforçando um contraste no papel dos gêneros. Quando buscamos frases, ou termos misóginos nas letras das músicas que tratam de festas/bailões/bailes, podemos notar essa influência.
“Quantas puta mercenária que eu já comi sem colete?” - Reliquia do 2T, MC Tuto (part. MC Joãozinho VT, MC Vine7, MC FR da Norte e MC Dkziin)
Quais palavras são utilizadas nas letras dessas músicas?
Nesse ponto, é necessário fazer uma observação acerca das palavras que podem, sem dúvidas, conter uma leitura de misoginia (pois se enquadram na EMENDA 7 / CDH - PL 896/2023 da Senadora Augusta Brito (PT), aprovada em 11/03/2026).
Dentro da música, é preciso entender que a liberdade poética estará, muitas vezes, sendo empregada. Dessa maneira, um “eu lírico” não fala pelo compositor/autor e nem ao menos precisa refletir sua opinião ou posicionamento. Isso é importante para entender que músicas muitas vezes estão traduzindo elementos de uma realidade, mesmo que isso seja incômodo.
Além disso, também é preciso entender que muitos termos estão enraizados dentro de movimentos culturais e musicais e, em determinadas ocasiões, são até mesmo reconfigurados como linguagem própria. O ponto da análise que a 300Noise se dispõe a fazer reconhece todas essas nuances e problemáticas.
Nosso intuito ao quantificar que a palavra “puta” é a mais utilizada dentro de uma lista de 50 músicas é o de ampliar a discussão sobre a própria forma como a indústria criativa vai estar refletindo questões latentes em nossa sociedade. Abaixo, disponibilizamos a nuvem de palavras do Top 50 do Spotify Brasil.
Quantas músicas do Top 50 do Spotify Brasil podem ter traços de misoginia?
Quando olhamos para um cenário com essa variedade de estilos musicais, fica nítido que há um enredo cultural sendo traduzido em uma parcela das músicas mais ouvidas do Brasil. Sobretudo quando olhamos para um ambiente de festa. Isso possivelmente é explicado pela forma como a sociedade patriarcal constrói estigmas sobre mulheres em diferentes contextos.
“Se beijar na boca dela, vai voar cadeira” - Não Mexe nas Minhas Gavetas, Danilo e Davi
Na semana em que analisamos a seleção de músicas, 1 a cada 4 canções apresentaram traços que podem ser lidos como “misoginia”. E construímos essa interpretação através de algumas perguntas chave:
A música generaliza mulheres como profissionais do sexo?
A música objetifica a mulher, ou coloca ela como status?
A música coloca a mulher em posição de traíra?
A música coloca a mulher em uma posição de submissão?
A música insinua ou coloca a mulher dentro de um contexto de violência?
Um recorte maior para as músicas mais ouvidas no Brasil.
Essa mini pesquisa foi feita a partir de um tema muito latente e urgente dentro da sociedade brasileira. No estado de São Paulo, local de onde escrevemos, houve um aumento de 45% nas vítimas de feminicídio. Como um estúdio de comunicação focado em música e cultura, acreditamos que o debate sobre esses temas deve ser amplificado dentro da comunidade artística.
Iniciamos uma análise envolvendo as músicas mais ouvidas da década de 2020. Pretendemos amplificar essa discussão e acompanhar também a evolução de outros indicativos dessa discussão a longo prazo.
Conheça mais nosso trabalho em:







Excelente análise, precisamos mesmo discutir esse tema, porque a cultura é espelho da sociedade mas também a molda, então mudanças têm que vir juntas. Seria muito legal também pensar essa análise por gêneros, já que a discussão veio a partir de uma visão sobre o funk, e pensar também em uma seleção de musicas que são consideradas clássicas, pra ver se é uma coisa "redpill" ou uma coisa mais antiga e presente.