Newsletter da 300noise #11 - Novembro de retalhos
A volta dos que não foram, uma coleção de ideias da 300Noise.
Em 30 dias o ano acaba. Isso mesmo. Sem escapatória. Está quase na hora de um balanço final sobre o que aconteceu, o que deixou de acontecer e o que está bem longe de se concretizar. Na sua vida, ou na indústria da música & cultura (que é mais ou menos nosso foco, como bem sabem). Essa Newsletter será diferente e pretende resgatar alguns tópicos já debatidos durante o ano, mas que serão cruciais para entender nossa balança de 2025 (em dezembro).
Mas não desista dessa leitura tão cedo, temos alguns apontamentos interessantes para fazer em formato de pequenas pílulas. Muita coisa aconteceu em novembro e muita coisa está sendo debatida pelas entranhas do mundo virtual. E se você gosta de consumir nosso conteúdo, pedimos um apoio, considere assinar a News e receber conteúdo extra para deslanchar naquela reunião da firma com dados, insights e ideias.
Whosampled x Spotify
O Site Whosampled é, entre outras coisas, um gigantesco banco de dados. Bom, em tese, o lugar onde fãs e entusiastas registram samples utilizados em faixas, é uma biblioteca para estudar referências e compreender o impacto de uma música ao longo do tempo. Mas na prática, temos um reservatório de mais de 1 milhão de faixas catalogadas e 600 mil samples para serem estudados ou utilizados para fins mercadológicos.
E dificilmente alguém vai achar que o Spotify comprou o site por conta da primeira alternativa. Com isso em mente, vamos entender quais são os resultados práticos da compra e o que podemos esperar para o futuro:
- Direitos autorais: Enquanto a verificação manual dos dados demanda tempo e recursos, um cruzamento de dados dentro do Whosampled pode entregar relatórios completos para gravadoras em pouco tempo. Mais dinheiro para a plataforma, mais artistas sendo processados, mais músicas recebendo takedown.
- Métricas de consumo: Através de gêneros musicais, artistas, épocas e ritmos. É inevitável pensar em uma otimização algorítmica, mas também em ampliação de relatórios sobre consumo para inserir novos produtos (músicas e artistas) dentro do mercado.
- Treinamento de Inteligência Artificial: para localizar samples, para estudar suas construções e para melhorar sua performance na geração de material.
- Implosão da comunidade: Fãs e entusiastas construíram uma biblioteca musical que virou um produto. Essa comunidade vai seguir colaborando com o Whosampled? Haverá benefícios para estes apoiadores?
No geral, podemos avaliar a compra do Whosampled como mais uma etapa da empreitada do Spotify pela manutenção de poder dentro do streaming musical. Claro, é também um reflexo direto do momento da empresa (que por sinal, já anunciou que o preço da mensalidade sofrerá um reajuste).
Para os criadores, podemos pensar no uso do banco de dados para melhoramento do banco de créditos da plataforma, em mais cautela e incerteza para artistas menores e também no fortalecimento de canais menores para a difusão de música.
Na sequência temos dois textos que merecem sua atenção e estão relacionados com tendências apontadas pela equipe da 300Noise no início do ano. Alguns podem já ter lido o material, mas é bom ter esse material em mente. Em dezembro, assim como as nossas listas de final de anos, vamos entregar um balanço geral.
Addison Rae e a busca pelo after nas ruínas do capitalismo
Algo está acontecendo na terra da liberdade e nessa altura do campeonato você já deve estar ciente. Não é só a política externa dos Estados Unidos que preocupa, mas seus problemas domésticos levaram milhares para as ruas de Los Angeles nas últimas semanas. O processo de uma crise, seja política, econômica ou social é complexo e aflora processos criativos e a forma como interpretamos eles.
No começo do ano falamos sobre a hauntologia no mainstream e como enxergamos que a música pop poderia responder aos cenários catastróficos e futuros desesperançosos através do escapismo, de um hedonismo que vai muito além de dançar enquanto o mundo acaba.
Addison nasceu no interior da Louisiana e estourou na internet através de vídeos de dança no Tik Tok (e não, isso não é uma simplificação, ela realmente viralizou dançando). Sua trajetória remonta um combo de clichês dignos de filme da Disney: a garota comum do interior que conquistou a fama através de sua espontaneidade. A líder de torcida que ganhou coreografias assistidas por milhões. O American Digital Dream das plataformas meritocráticas.
Em seu disco de estreia, a cantora não só aplica a lógica de sua trajetória de influencer, mas utiliza o supérfluo como força motriz de sua identidade. Um diálogo hedonista com a própria efemeridade da fama dentro das redes sociais e do questionamento central: quanto tempo dura um viral? Ou melhor, quanto dura um hit? Ou, em uma máxima, quanto tempo dura uma carreira?
A incerteza do futuro, ou a prévia do pior cenário se materializando, é o suficiente para que o debate esteja sendo feito em torno do medo de perder algo que está acontecendo (FOMO) e, por consequência, a preocupação imediata de uma geração que precisa estar no aqui e no agora, porque não há algo indicando o ‘ali’ e o ‘depois’. Só resta o sentimento de ‘gonna dance, gonna dance till the wheels fall off You know I can’t get enough’.
Por outro lado, é impossível desgrudar esse disco da construção da cultura pop, nostalgiando referências de distintas gerações (como Madonna, Gaga e Lana) e se colocando como produto direto desse processo. Addison está mais interessada em falar da história do que fazer parte dela, afinal, a temporalidade já não está em pauta, mas sim as múltiplas possibilidades de materializar a vida presente. Dinheiro, fama, viagens, luxo, baladas.
O disco passeia por zonas de escape e todas elas estão no mundo material. A artista dialoga constantemente com o pensamento de criar e viver o mundo através da lógica de sua destruição. O dinheiro não vai junto no caixão, como costumam dizer. So I put my headphones on.
A Gen Z e a descentralização do consumo
Muitas matérias estão abordando algo que chamam de “Gen Z Stare” (Olhar Gen Z). Uma expressão caracterizada por um olhar vazio e desconexo com o ambiente ou com a pessoa com quem está conversando.
Alguns conteúdos abordam a relação dentro do ambiente de trabalho, movidas pelas diversas discussões sobre postura profissional, desilusão e comportamento geracional. Está aí uma grande caverna a ser explorada e mineirada por sociólogos, filósofos e alguma terceira coisa misteriosa no meio do caminho.
Mas além dos falsos alarmismos, análises comportamentais e teorias sobre uso de tela, podemos entender que cada geração vai ter seus códigos particulares e sua forma de se relacionar com diferentes gerações e hierarquias de poder. E nesse ponto, é interessante pensar na forma como a Geração Z está dialogando com o mercado e suas estruturas em ruínas. Segue que o papo vai longe...
A geração das Windows
Uma geração que cresceu acostumada com telas e nichos, ou “windows” de conteúdo, também acompanhou o encurtamento de horizontes virtuais. Do fim de plataformas de jogos, até o encerramento ou compra de comunidades virtuais, a internet foi se concentrando em monopólios.
A busca incessante por entretenimento digital já esteve no mundo das infinitas possibilidades. Antes da constante troca entre o Youtube, Instagram, Netflix e Spotify, a Gen Z conseguia perder centenas de horas com antigas epítomes da diversão em rede. Desde o Pudim.com.br até conversas sobrenaturais com o Obaid, a internet era um pasto a ser explorado.
O passatempo longe dos olhares algorítmicos era descobrir algum canto oculto onde alguma nova comunidade estivesse secretamente se reunindo para compartilhar conhecimento e tecnologia, como o Torrent, ou a customização de HTML para seu blogspot. É razoável pensar esse período faz mais sentido para os mais velhos dessa geração, os que ainda nasceram no final dos anos 90.
Quem se aclimatou com o mundo virtual pela primeira metade dos 2010 ainda podia ter algum resquício de memória da internet discada, ou ter criado um perfil no Orkut que durou pouquíssimo tempo, mas estaria mais familiarizado com um celular com canetinha touch e os joguinhos do Facebook.
De qualquer maneira, a Geração Z acompanhou a transformação da internet a partir da desilusão. A ferramenta que encurtou a distância e o tempo dentro do planeta, passaria por uma limitação de suas próprias infinidades. E a causa é dupla, com fundamento na mesma raiz: Algoritmos & Monetização.
O delírio da internet como espaço democrático escorreu pelo ralo e a falsa ilusão de praticidade acabou levando até mesmo a pirataria junto nesse processo. Desbravar o desconhecido virtual passou a ser sinônimo de fazer um doom scrolling dentro do Tik Tok. Estamos na era dos monopólios digitais.
Fuga na prisão digital
A Gen Z, que aprendeu a se relacionar com o mundo na base de avatares mutáveis, abas de navegação e estilização de HTML agora se vê presa em plataformas que limitam a visibilidade de um mero link que cogite redirecionar o usuário para qualquer outro canto da web que não esteja ao alcance de seu robozinho coletor.
Embutidos nessa lógica e igual prisioneiros precisando passar mensagens, não é estranho imaginar a criação de códigos próprios. Símbolos, gírias, emojis, trends... Um arcaico lol ainda é compreensível, mas impõe menos barreiras que um delulu ou poggers.
E os símbolos e códigos por trás de uma geração também se estendem por grupos, claro. Afinal, esse não é um comportamento novo, mas está, atualmente, configurado em um ambiente que 1 – tem velocidade e alcance surpreendente, 2 - tem ambientes controlados por empresas e algoritmos prontos para traduzir seus dados em produtos.
O ponto então é entender que o consumo de conteúdo virtual espalhado pelo vasto e selvagem campo que um dia foi a internet, agora se aglutina em redes sociais e é conduzido, sobretudo, pela geração que dominou e performou dentro dessas plataformas.
O cronicamente online está relacionado não só a forma como a vida foi raptada pela mastigação de conteúdo interminável, mas também pelo desejo inerte do escapismo por nostalgia ou descrença. Tudo isso pela necessidade de estar presente em todas as instâncias e micro acontecimentos, produzindo e consumindo. A construção do Homem Sem Sono de Crary em 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono
A Gen Z busca uma eterna fuga para as bordas do algoritmo em busca de uma individualização e tão logo se vê inserido em um novo centro de absorção de conteúdo. No iceberg do conteúdo digital, toda periferia tem seu próprio centro gravitacional. O Algoritmo serve para isso, um imã de atenção para o comum.
O Nicho como subproduto do monopólio
O consumo de nicho pela Gen Z é a resposta perfeita para a descrença na internet e a fuga da pasteurização de conteúdo. Uma forma de procurar identidade e pertencimento, até que o nicho vire a próxima tendência. E ele não tarda em virar, afinal toda a sua experiência nas redes foi registrada e gerou uma planilha. O mesmo conteúdo que explodiu dentro de sua bolha foi replicado para outras maiores em busca de engajamento e conversão.
Nenhum mercado está fora do algoritmo. Seja pela necessidade de mercantilizar todo aspecto cultural e comportamental dentro da rede, ou pela lógica de monetização de criação de conteúdo nas plataformas. E se a exaustão em rede faz crescer a busca por zonas distantes em busca da personalidade, esse comportamento se espelha no cotidiano offline.
E assim, símbolos de nicho vão sendo realocados para o centro do algoritmo e para o conteúdo padrão. O algoritmo cruza pontos em comum de diversos nichos e achata o iceberg trazendo para a superfície suas camadas mais profundas. Esse é o caminho que leva o Labubu (produto de nicho de colecionadores de blind box) para os vídeos da Virgínia.
E empresas gigantes de todos os setores, compreendendo a tendência de fuga para as beiradas da Gen Z, precisa se adaptar para participar desse mercado. Ou seja, trazer as bordas e os nichos para o centro. Houve um tempo em que selos musicais eram pilares da música independente e uma resistência contra o mercado estabelecido por gravadoras. Hoje, gravadoras internacionais criam selos para suprirem nichos e artistas de todos os tamanhos.
E para marcas entrarem na lógica das bolhas e da multiplataformização, a estratégia é a mesma. Criam-se produtos, ou divisões internas de fácil penetração. Essa é a lógica da collab, onde tudo é possível e nada foge do escopo e da identidade da marca. Esse é o mecanismo por trás de uma marca de sabão em pó estar fazendo camisetas com uma marca de streetwear, ou da Adidas lançar uma collab com o Korn.
A crise do novo
Esse ecossistema e modelo acaba chegando no ponto central e na sensação que todos temos ao passar horas descendo em timelines: não existe nada de novo por aí? A 300noise escreveu sobre isso um tempo atrás e, honestamente, continuamos a pensar nesse tema e na eterna exaustão das redes. Com isso vamos ver reflexos em comportamentos, o envolvimento com novos tipos de artes e hobbies e, claro, o estabelecimento de produtos que supram essa busca, sempre oferecidos pelas mesmíssimas empresas, já atentas e munida de dados.
Aproveite para deixar um comentário e somar nessa discussão e confirma o trabalho da 300Noise em todos os cantos (não tão distantes) da internet.
Saia do celular e…
Vá ler um livro:
Quem Foi Que Inventou o Brasil? (Vol III) de Franklin Martins.
Coleção criada pelo jornalista Franklin Martins, a coleção Quem Foi Que Inventou o Brasil? é composta por três volumes que dividem a história do Brasil em períodos importantes para pensar a construção da identidade nacional (Vol. I 1902 - 1964 / Vol II 1964 - 1985 / Vol III 1985 - 2002).
O terceiro volume se trata justamente do período da redemocratização e da nova república brasileira, passando por algumas breves explicações históricas sobre os principais desafios desse período, citando alguns personagens e acontecimentos, e em seguida quase catalogando várias músicas de época que passam pelos principais temas nacionais.
No geral é uma ideia interessante pela amplitude de gêneros e artistas que muitas vezes passaram despercebidos até agora no que você já conhece da música nacional.
Ainda assim é um pouco limitado para ter um entendimento mais profundo da relação cultura e relações sociais, em especial no que se refere a gêneros como o rap, samba e funk que já estão presentes no período do terceiro volume.
Tem um site um pouco ultrapassado que acompanha essas publicações e que é bem interessante, talvez tanto quanto comprar o livro em si.
https://www.quemfoiqueinventouobrasil.com/
Samba, Democracia e Sociedade. Grande compositores e expressões da resistência cultural no Brasil. Luiz Ricardo Leitão e Marcelo Braz (org.)
Esse aqui já é um pouco diferente. Com uma teoria e debates mais complexos, esse livro é um estudo mais específico mas também bem mais profundo.
O samba aparece como um fio fundamental que nos ajuda a encontrar um caminho entre essa história oficial maquiada do Brasil e uma outra historiografia ligada ao povo preto e periférico, que muitas vezes ou é apagada completamente ou tida como apenas uma nota de rodapé na história de lutas sociais nacionais.
Luiz Ricardo Leitão, prof. da UERJ, e Marcelo Braz, prof. da UFRN, mostram como o samba é um dos mais importantes e tradicionais movimentos sociais da história do Brasil, contribuindo para o pensamento crítico acerca do que é democracia como também ajudando a população em sua organização e luta social.
Esse aqui muito mais do que só buscar por novas músicas dá para encontrar toda uma epistemologia popular ligada ao samba, seus principais artistas e pensadores.
Vá acessar o site da 300noise (ok, você talvez precise do celular para isso, mas segue o baile!)
Nosso site está de cara nova e tem um apanhado de materiais nossos para download. Você pode se divertir explorando nossas pesquisas e, em breve, até mesmo ter uma biblioteca com muito material extra desses 10 projetos que separamos aqui e (conteúdo removido porque aqui a gente não vai dar spoiler). Agradecemos ao nosso mestre dos computers G.G. pelo trabalho e esforço no projeto.www.300noise.com.br
Comprar um merch:
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso, temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.
S.A.C. da 300Noise:
Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!
Gostaria de ver mais dicas de novos artistas brasileiros, já conheci muito graças a vocês!
R: Já conferiu nossas playlists?
Vocês aceitam envio de material de bandas? Qual a melhor maneira de enviar?
R: Utilizamos o Groover para receber material e oferecemos consultorias e outros trampos. Quer a visão da 300Noise em seu projeto? Entre em contato no 300noise@gmail.com
Onde acesso os projetos da 300noise?
Lança uma revista digital com textos sobre bandas de cada estado do país!! Faz uma seleção e tal, até duas páginas algo assim… Dois por estado? Não sei… Seria lindo. Amo o trabalho de vcs!
R: Temos um projetinho gráfico (e digital) para o começo de 2026! Agradecemos a sugestão!
Quer dizer que você trabalham com consultoria e pesquisa para bandas ou empresas?
R: Sim, estamos operando em várias frentes. 300conteúdos, 300empresas, 300festas e em breve 300pendrives (ok, esse é brincadeira!) Quer entender melhor o que oferecemos? Quer contratar a 300noise? Mande um email para 300noise@gmail.com















Eu tou encantada com a profundidade do conteúdo de vocês, que prende do início ao fim. Pegando o gancho do tema, os textos resgatam em mim uma sensação boa da internet do velho testamento dos blogs, fóruns, tumblr, torrents que eram o leito das descobertas, e que saciava a sede por novas referências. Curtindo demais o trabalho de vcs.