Diretamente de uma metafórica borda de piscina, dentro de um metafórico resort em águas caribenhas, venho desejar um bom início de ano. Faço um esforço para, entre um ficcional coquetel e um imaginário canapé, escrever essa newsletter sobre música, cultura e outras cositas mais.
O ano já começou pegadíssimo em diversas esferas da vida. Temos um carnaval que já está entrando pela porta sem pedir licença, tentativas de hits de verão utilizando as táticas variadas e até mesmo vozes de golfinhos para te convencer de dar um play por curiosidade. E, pelo segundo ano, não temos cantores no BBB, o que por um lado é muito bom, por outro, nos tira esse tópico da zona de debate. A equipe da 300Noise está fechada com (redacted).
Nesse último domingo tivemos a 68ª Cerimônia Anual do GRAMMY Awards. Quem levou o maior prêmio da noite? Benito, o detentor do pódio de melhores do ano da 300Noise. DtMF recebeu duas estatuetas (álbum do ano e álbum urbano), além do artista receber a melhor performance de música global (seja lá o que isso signifique em 2026).
Tivemos apresentações das mais variadas, um Spilberg que se tornou EGOT, um prêmio para Caetano e Bethânia e discursos fortes contra o ICE de Trump. Para encerrar o tópico, fique com as aspas do Coelho Malvado.
São Paulo terá, ou ao menos tentará, um Gagacabana para chamar de seu. Na Paulista? Só brecando a limitação de três eventos por ano (Réveillon, São Silvestre e Parada do Orgulho). Uma dor de cabeça extra para a prefeitura, que já está tentando dar um olé no MP para dar sequência nas festas noturnas do Anhangabaú, afinal, alguém que investiu deve estar chateado com isso.
No mundo dos streamings, temos dados interessantes para vocês operarem números em suas calculadoras mentais: o Spotify pagou 11 bilhões de dólares para a “indústria da música” em 2025. Some isso com o fato de que grande parcela de artistas e faixas não chegam a ver um centavo desse montante, justamente pela medida dos 1000 plays.
Pelo mundo, reports sobre o ano de 2025 não vão parar de surgir até o mês de março. E já adiantamos algo que muita gente vai comentar: prestem atenção no sul global. Nigéria, país parceiro do Brics, está com uma indústria musical alavancadíssima, com projeção de 1 bilhão de dólares em receita até 2032.
Vamos recomendar um relatório completo sobre esse mercado, leia aqui.
Um carnaval com mais fanfarra do que hit
Alguns anos atrás escrevemos sobre a morte do hit de carnaval. Ou melhor, sobre como existe uma dificuldade em cravar hits em uma indústria que tem diversos tipos de métricas e que todo mundo pode ser o número 1 em alguma coisa super específica. Afinal, tem artista recheado de play que ninguém nunca chegou a ouvir.
Isso significa que uma música como Jetski não é um hit de verão, ou de carnaval? Não, mas significa que talvez essa música não supere a barreira quantitativa. Ou melhor, talvez Jetski e seu “toque” de nostalgia (rs) não entre no arcabouço imagético do carnaval 2026. O mesmo vale para a aposta de Leo Santana, ou de Ivete com a péssima “Vampirinha”.
Mesmo se a música for martelada em todo o bloco? Mesmo assim.
E talvez música alguma ocupe esse local, ou talvez todas as músicas ocupem esse local através de um meio: a fanfarra. O ser humano reproduzindo música ao vivo enquanto as novas versões de xeque mate ativam a química no seu cérebro.
A união dos instrumentos de sopro e percussão tradicionalmente estão conectadas ao carnaval de rua, da fusão cultural presente na nossa versão da festa e, claro, na resistência em ocupar o espaço público que persiste desde as proibições do século 19.
Em São Paulo teremos mais de 600 blocos nas ruas, uma queda desde o ano anterior, mas uma quantidade expressiva em relação a própria verba destinada para essa festividade (2.5 milhões em edital, mesmo valor de 2025).
Isso significa que, cada vez mais o espírito de sobrevivência e resistência estará ocupando a lógica dos blocos que ainda resistem, afinal, a mesma verba não significa o mesmo valor.
O cerne das fanfarras como ponto de atenção e destaque conversa um pouco com essa inclinação mercadológica pela música de raízes, mas também está na cola do desejo humano pelo verdadeiro, mesmo que imperfeito. Nem preciso entrar no tópico da Inteligência Artificial, não é?
Se ano passado nosso texto de carnaval apontava um embate entre um hit do Norte do Brasil (Resenha do Arrocha) contra o Sul (Descer pra BC), esse ano temos uma indústria que está de olho em movimentos orgânicos, porque cada vez mais charts vão ser deixados de lado, principalmente pensando em Carnaval.
Ninguém mais aguenta Listening Bar
Certamente ninguém discutiu mais sobre esse tópico do que a equipe da 300Noise. Digo isso com tranquilidade, afinal, diversas conversas casuais atingiam o ponto do famigerado bar de audição.
Popularizado por São Paulo no último ano, porém já exaustivamente representado nos embrulhos virtuais, entre o instagramável e performático, entre o simulacro e o memético. O listening bar se instalou com a voraz gentrificação pós-pandêmica.
Uma questão latente sempre foi saber se um estabelecimento é um listening bar, ou um bar fantasiado de listening bar. E, claro, pensando sobre o conceito original, que voa longe do nosso tempo espaço, é fácil qualificar um desses lugares entre cópia, releitura ou falsa propaganda.
O Listening bar, já comparado com as saudosas paletas mexicanas, criou argumentos interessantes sobre a melhora de trabalho para profissionais da discotecagem, espaços de alta definição sonora para entusiastas e amantes da música e, claro, o encarecimento do aluguel através da presença do hipotético bigodudo de ecobag.
Sua origem, porém, está nos jazz kissas japoneses, ambientes dedicados a escuta e discussão de discos de vinil. Funcionando desde o final da década de 1920 com a inauguração do Blackbird em Tóquio. Sua população, porém, se deu na década de 50, juntamente com a ocupação dos Estados Unidos no país durante o pós guerra.
Esse papo todo você ouve em nosso podcast, Ruído Global.
Mas voltando ao ponto central: qual o problema de um ambiente para ouvir música com boa qualidade de som, no offline, através de seletores e não algoritmos. E nisso, de fato não há problema algum. A leitura mais crítica sobre esse formato de estabelecimento está justamente em sua exaustão e seus efeitos.
Em um momento de alta do vinil, busca por espaços que tentem “entender” (mesmo que de forma errônea) o comportamento da Geração Z e expansão da vida noturna (em metrópoles como São Paulo), esse ambiente é comercialmente atrativo. Por enquanto, enquanto durarem os estoques, como dizem por aí.
E sabemos que muitos lugares estão ocupados na rentabilidade, mas não em uma comunidade, que é o que mantém a parada funcionando. E quando a onda passar, um mercado de profissionais aquecidos vai precisar batalhar pela sua permanência. Cachês podem traçar o caminho inverso do custo de vida. O sistema opera.
O caminho para uma queda drástica de interesse pelos Listening Bars não bate na porta, mas vai se esgueirando silenciosamente. O encarecimentos de custos, a perda de público, a reformulação de proposta, o fechamento. Essas mudanças vão ganhando forma e você volta para o questionamento da nossa equipe.
Esse lugar é um listening bar, ou um bar vestido de listening bar?
Mas não se frustre, em nosso post sobre tendências já comentamos sobre um formato que deixa a música no centro e nem ao menos depende de um lugar fixo para existir. Assim como a Resident Advisor adiantou, adeus Listening Bars, olá Listening Clubs!
Pare o doomscrolling e…
Vá assistir Uma Historia de Luta e Dança - O Preto Som das Ruas
Um dos documentários mais legais que eu revisitei nestes tempos é o Preto Som das Ruas, produzido pelo coletivo Imagem e Som com apoio do edital VAI de São Paulo.
O documentário passa por uma pergunta fundamental, mas que muitas vezes não é apreciada pela academia e história da cidade de São Paulo: porque existem bailes negros? Qual a importância deles?
Trazendo várias referências diferentes, com relatos de artistas e debates com intelectuais, o documentário mostra a importância do baile tanto como uma forma de expressão da cultura negra em sua diversidade viva como também expressão de uma rede de proteção da população negra que se adaptou aos vários momentos históricos.
Durante a pandemia, com aquela enxurrada de conteúdo na internet esse ai foi sem dúvida um destaque no meu momento de quarentena e distanciamento social, mas que ao mesmo tempo se mantém atual e muito relevante para o momento histórico que vivemos, com o aumento da violência contra os bailes funk e a criminalização da cultura periférica.
Ler a pesquisa: O mapa da música autoral de SP - by Bazzan
Muitas vezes, ao pensarmos nas aulas de geografia na escola, quando os professores passavam lições sobre cartografia, leitura de mapas e pontos cartesianos, ficamos com o principal ensinamento de que cartografia = decorar informações sobre o mapa.
O mapa, assim como a tabela periódica e qualquer outra ferramenta humana, tem um propósito prático, não fazendo sentido decorar informações para além da familiaridade adquirida pelo uso constante.
A realidade é que o mapa é um instrumento de poder. Durante a história, reis e imperadores usaram de sua força militar não só para mapear terras pouco conhecidas, mas mantinham essas informações guardadas a sete chaves. Durante guerras, tanto no passado quanto atualmente, mapas são a base para organizar estratégias, dominar territórios e ganhar batalhas.
Isso também serve para o mapa feito pelo BAZZAN, mesmo que ele não tenha o mesmo drama de um mapa militar.
O mapa da cena autoral de São Paulo que ele organizou, além de ter ficado muito bonito com as ilustrações, compõe um guia com 172 artistas (em constante atualização) de rock, indie, MPB, punk/hardcore e emo, além de 41 casas de show.
Obviamente o mapa tem vários tipos de limites que o próprio BAZZAN reconhece na sua publicação, mas ele é um começo para uma conversa muito importante tanto para os artistas como para o público e para as casas de show. Quem conhece a distribuição da cultura na cidade de São Paulo tem um meio de começar a transformá-la.
No próprio mapa do BAZZAN é possível conhecer novas casas de show (como a nossa Casa 300Noise) e novas bandas que agregam uma ou várias cenas da música alternativa na cidade de São Paulo. Através dessas informações fica fácil identificar alguns bairros que concentram mais casas de show e até pensar em outras possibilidades de ampliar esse mapa para outras áreas da cidade e até para fora dela.
As possibilidades de usar essas informações são muitas. Dá para entender se seu bairro tem uma cena que te agrada, para a casa de show conhecer potenciais parceiros ou cenas musicais que poderiam crescer onde elas estão e até para as bandas entenderem quais roteiros de shows são possíveis para elas dentro da cidade.
Um mapa desse estilo para uma metrópole como São Paulo exige muitas mãos, muita colaboração entre diferentes autores, pesquisadores, bandas e casas de show, não é algo possível de ser feito de uma hora para outra. Mas apesar do tamanho deste trabalho, ter uma ferramenta potente como essa pode ser o caminho para unificar mais os produtores de cultura na cidade de São Paulo e fazer valer na prática a democratização que a atual prefeitura e o neoliberalismo nos negam.
VELOCÍMETRO DO ELETRÔNICO:
A música eletrônica brasileira, apesar de muitas vezes ser identificada como algo elitista e muito dependente de grandes festivais como o Tomorrowland, na realidade tem uma enorme diversidade de artistas, gêneros e é uma das partes mais importantes do momento atual da música popular brasileira.
Cada BPM é um universo diferente, com suas peculiaridades, tipos de batidas e expressões diferentes. Começando aos 100 BPM com reggaeton, passando pelos 120 BPM do House, 130 do Drum n Bass, 150 do Techno e chegando até os 190 BPM, na música eletrônica brasileira vale ir devagarinho até ficar o mais acelerado possível.
Por isso, nós criamos a playlist VELOCÍMETRO DO ELETRÔNICO, passando pelos artistas já renomados, os clássicos e os novos artistas da música eletrônica brasileira propondo uma viagem acelerada por toda essa diversidade musical.
Clique aqui para ouvir:
Comprar um merch:
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso, temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.
Por fim…
S.A.C. da 300Noise:
Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!
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R: Já conferiu nossas playlists?
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Onde acesso os projetos da 300noise?
Quer dizer que você trabalham com consultoria e pesquisa para bandas ou empresas?
R: Sim, estamos operando em várias frentes. 300conteúdos, 300empresas, 300festas e em breve 300pendrives (ok, esse é brincadeira!) Quer entender melhor o que oferecemos? Quer contratar a 300noise? Mande um email para 300noise@gmail.com
ONDE ESTÃO OS LANÇAMENTOS DO MÊS????????????????????????
Esse mês vamos ficar devendo! Busque conhecimento, um abraço da 300noise!
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