Newsletter da 300Noise #7 - Julho Voraz
Boicote em festivais, marketing insano e como aprender a dançar no fim do mundo.
Querendo ou não, passamos da metade de 2025. Julho foi um mês movimentadíssimo para a política brasileira e você, fiel ouvinte (ou leitor) da 300noise, já foi informado meses atrás sobre os impactos das tarifas de Donald Trump na música. Desde o vinil que você compra até o ingresso de algum festival que vai precisar fazer malabarismo para seguir vendendo.
E se aqui estamos aquecendo para um super novembro do showbusiness (a ver), a Europa segue seu verão de festivais, com um porém... Nessa Newsletter, vamos tratar de boicote, Tyler The Creator sob medida para pistas de dança (novamente, cof cof, cantamos a bola), o marketing da ruivinha do Paramore e também sobre a terrível tarefa de correr contra o tempo...
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Um Verão de Boicotes – A música também fomenta guerras e genocídios.
O verão europeu tradicionalmente cria um calendário intenso de turnês e festivais de música. Temos o Primavera Sound e o Sónar de Barcelona, Tomorrowland na Bélgica, Glastonburry, Lido e Download no Reino Unido e por aí vai. O setor movimenta o setor hoteleiro e principalmente a circulação de turistas de todos os cantos do mundo.
A efervescência dessa alta circulação entre pessoas, culturas e artistas, acaba também refletindo em uma conversão de pautas. E nesse ano, mais uma vez, falar sobre a Palestina está sendo mais do que necessário. E mesmo não recebendo destaque na mídia brasileira, protestos seguem com força em diversas cidades e países. Enquanto o Wireless Festival rolava na Inglaterra, 70 pessoas eram presas pela polícia.
O grupo irlandês, Kneecap, recentemente passou por uma intensa e absurda perseguição por conta do seu posicionamento duro em relação ao genocídio do povo palestino. O premier húngaro, Viktor Orbán, proibiu os integrantes de entrarem no país por 3 anos.
Os precursores do trip-hop, Massive Attack, desenvolveram uma aliança em apoio aos artistas que se posicionarem contra a crise humanitária em Gaza.
“Esta ação coletiva visa, na verdade, oferecer algum tipo de solidariedade aos artistas que vivem dia após dia um genocídio em tempo de tela, mas estão preocupados em usar suas plataformas para expressar seu horror devido ao nível de censura em sua indústria ou de órgãos jurídicos externos altamente organizados, aterrorizando-os e suas equipes de gestão com ações legais agressivas. A intenção é clara e óbvia: silenciá-los.”
E se os artistas estão sendo ameaçados constantemente, o movimento passa a ser identificar ambientes de segurança dentro dos próprios eventos. Não é sobre aprofundar a relação entre música e política, mas entender as camadas do mercado e do fluxo de capital. E nesse ponto, temos que voltar para a Boiler Room...
Em 2021, a festa/plataforma inglesa Boiler Room, foi adquirida pela empresa DICE. Não tardou para ticketeira se desfazer da compra, repassando o investimento para a Superstruct Entertainment, uma gigante do showbusiness europeu. E quais festivais essa companhia detém?
E muito mais…
E por sua vez, a Superstruct é de propriedade da companhia de investimentos americana, Kohlberg Kravis Roberts & Co. (KKR), empresa com diversos investimentos estratégicos em Israel. Desde a indústria armamentista, até especulação imobiliária e assentamentos.
Não só a Boiler Room foi questionada sobre o dinheiro das pistas de dança estarem circulando para máquinas de guerra, mas o mesmo aconteceu com todos os outros eventos ligados a companhia. No caso do Field Day, na Inglaterra, praticamente metade do lineup participou do boicote. 30 artistas pularam fora do Sónar na Espanha. E outros festivais passaram pelo mesmo processo.
Essa semana discutimos sobre a estratégia de boicote para além daquela máxima de não existir consumo consciente no capitalismo. O ponto não é esse. Não se trata de cair em hipocrisia (KKR tem ligação com milhares de empresas e você certamente consome algo que dá dinheiro para eles). A mensagem sobre Gaza precisa circular e o barulho dos artistas segue reverberando.
Talvez, aquele que estão recebendo essas notícias de maneira paralela, não tenham olhado para o cenário maior. E o trabalho feito pela mídia é exatamente esse. Isolar os acontecimentos e diminuir sua importância. A perseguição do Kneecap, a repressão aos protestos, a criação de uma rede de suporte aos artistas que criticam ações genocidas e o surgimento de uma linha de boicote. Tudo faz parte das tensões e embate contra as atrocidades contra os palestinos. Um cenário construído para a manutenção do poder de influência e proteção dos interesses do Ocidente em Israel.
E isso tem mais ou menos a ver com essa vergonhosa barganha pelo reconhecimento da Palestina. Mas esse é um papo para outra hora. Assinem O Mundo Está Uma Loucura para ficar por dentro desse assunto!
Hayley Williams e lançamentos que ficam na memória
Nessa semana a eterna Ruivinha do Paramore lançou seu novo disco, Ego (sem confirmação oficial do nome). Ou, mais ou menos isso. A verdade é que a cantora ofereceu um código para quem comprasse sua tinta de cabelo e direcionou os fãs para um site construído na dinâmica dos primórdios da internet (e se isso te soa familiar é porque avisamos sobre essa tendência).
No final, ouvir seu trabalho acabou sendo um processo bem manual, interativo e divertido. São etapas que fogem da objetividade e passividade dos streamings, mas também uma estratégia de marketing refinada para conectar marca + música + comunidade. Os fãs compartilharam códigos e investigavam pistas sobre lançamento oficial, ou coisa parecida.
Afinal, esse é um lançamento pra valer? É só uma pré-audição? Ela terminou com o namorado barra colega de banda? Ela está cantando em português? O que o filme de Wes Anderson e Seu Jorge tem a ver com Hayley Williams? Bem, tudo isso, calculado ou não, fez a comunidade se debruçar no disco.
A insegurança pela plataforma de audição também levou alguns fãs a salvarem o trabalho e, um dia mais tarde, o disco desaparece. E o que você faz com isso agora? Espera ele surgir nos streamings, ou compartilha o link entre grupos de fãs e pessoas desavisadas que vieram pela curiosidade e ficaram pela escassez? Um movimento inusitado e de forte impacto. Aguardemos...
ATUALIZAÇÃO!!
Logo após fecharmos essa news, ficamos cientes de que o álbum foi lançado em forma de singles separados. Vá ouvir!
Saia do celular e…
Vá ler alguma coisa, ou comprar alguma coisa pra ler e ver palestras e shows:
Flipei, Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, rola nos entre os dias 6 e 10 de agosto na Praça das Artes, centro de SP. De início o evento acontecia paralelamente a FLIP em Paraty, em um barquinho ancorado na baia da cidade. O role já passou por diversas peripécias, como um ataque de bolsonaristas com fogos de artifício sendo lançados na direção do barco durante uma fala com Glenn Greenwald no auge da Vaza Jato. Se não tivesse visto com meus próprios olhos, não acreditaria. Tudo isso ao som de Pavão Misterioso. Puro suco de realismo mágico latino-americano.
Bem, agora eles estão aqui na capital e com uma programação finíssima que acopla um show do Dead Fish, mas também uma mesa com Tiago Santineli, Laura Sabino, Duda Bolche e Jones Manoel debatendo algoritmo e luta de classes na era digital. E mais, nossos parceiros do Sol Y Sombra estarão realizando um baile latino no dia 08, sexta-feira.
Ver um filme:
Longe da 300noise indicar o novo filme de Darren Aronofsky com trilha sonora feita pelo Idles! Nossa recomendação é de algo que envelheceu feito vinho e o tribunal implacável da internet já está começando a aceitar isso.
Speed Racer (2008) é o filme definitivo de história em quadrinhos e quem vai te convencer disso não somos nós, mas sim um vídeo ensaio para você refletir e aceitar esse fato. A experiência é magnífica e o CGI em excesso, avalanche de cores e planos com múltiplas áreas de foco são um soco na cara da estética tão blasé que virou receita de bolo da sétima arte.
Ouvir um disco de vinil e plantar sementes:
Você conhece o disco Plantasia? Um trabalho pioneiro da música eletrônica e que foi pensado para auxiliar o crescimento de plantas. O disco nasceu como um brinde de uma loja de plantas e nós fizemos um reels contando tudo pra você!
Comprar um merch:
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso, temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem a próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.
Ouvir Música!
Tyler, The Creator – Don't Tap the Glass
Vindo do grande sucesso de um álbum conceitual, intimista e pessoal, Tyler decide romper qualquer expectativa de algo ainda nessa linha e lança um trabalho divertidíssimo. Mesmo com algumas referências aqui e ali, o intuito desse conjunto de músicas é simples: não pense muito, apenas dance. A produção é o ponto alto, com batidas, refrões e melodias que grudam na primeira audição. Tudo funciona bem e parece estar no lugar certo. Um dos trabalhos mais consistentes de sua carreira. Aprecie esta grande obra sem moderação.
Nuovo Testamento – Trouble
Ainda não se sente satisfeito com o disco do Tyler? Então vai tomando mais música para você dançar até seus pés ficarem em carne viva. O trio de Los Angeles entrega neste EPzinho o melhor do dark-italo-dance-pop, revestido de uma produção moderna, músicas bem escritas, melodias criativas e timbres que vão te hipnotizar e não vão deixar essas cinco músicas saírem dos seus fones.
Martírio – Los Siete Sellos
O hardcore sul-americano segue vivo, obrigado. Metalcore do mau, feito com muito ódio da humanidade, especialmente pelas instituições religiosas. Nossos hermanos deixam bem clara sua raiva contra o passado colonizador e as guerras religiosas. Ótima trilha sonora para sair no soco.
Joca - Cortavento
Com mais de uma década operando na música, o compositor recheia seu novo trabalho com influências diversas, ritmos, beats e bagagem de anos mergulhado no processo criativo do novo disco, já presente em seus shows. Os feats brilham muito, principalmente o de Antonio Neves e o de Ebony.
Quadeca - Vanisher, Horizon Scraper
Ousadia e alegria. Alguns artistas vivem na emoção de caminhar na linha bamba entre o genial e o exagerado. Essa é a graça. Disco que merece sua atenção.
Clipse - Let the God Sort Em Out
Retorno do projeto de Pusha T e seu irmão Malice trazendo um time de peso (Tyler, Kendrick, John Legend, Pharrell, Nas e outros). Feito sob medida para ser o disco do ano para Anthony Fantano. Mas veja bem, o disco é de fato muito bom.
S.A.C. da 300Noise:
Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!
Como faço para colaborar com a 300Noise?
R: mande sua proposta aqui mesmo, ou em nosso e-mail: 300noise@gmail.com
E a review do Alfredo 2?
R: Sem perguntas difíceis. É bom, ainda estamos mastigando.
Cadê o texto sobre a Lei Rouanet?
R: Semana que vem, se tudo der certo. Mas é importante entender que quase nunca as coisas dão certo. (juramos que sai semana que vem).
Vocês aceitam envio de material de bandas? Qual a melhor maneira de enviar?
R: Utilizamos o Groover para receber material e oferecemos consultorias e outros trampos. Quer a visão da 300Noise em seu projeto? Entre em contato no 300noise@gmail.com
Façam um post com os melhores lançamentos do ano até o momento, preciso ouvir coisas novas.
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