Newsletter da 300Noise #8 - Agosto nas estradas
Lollapaloooza, pirataria musical, canções em pendrives e algumas loucuras pelo caminho.
É possível que Jair Bolsonaro já esteja condenado quando você abrir essa newsletter, mas também é possível que sua fatura do Spotify já esteja mais cara e que você possa mandar mensagens em um chat dentro do serviço de streaming mais citado pela 300noise.
Em agosto, esse pequeno e destemido estúdio cultural pensou muito sobre caminhões, pendrives, festivais e o futuro que nos espera tão logo, tão ali! Pegue um café e venha entender o que nos fez montar um pendrive com artistas independentes.
Mas antes, clica no botão e ajude a 300noise!
O pendrive da 300noise
Na última semana soltamos uma pesquisa sobre o consumo de pendrives musicais por caminhoneiros. Não leu? Após ler esse fino material mensal que preparamos com tanto carinho (nossa newsletter) acesse www.300noise.com.br e leia o material completo.
Desde o começo do ano, estamos olhando para a música fora do streaming. Seja pela incerteza de um futuro dentro dessas plataformas, ou pela exaustão de sustentar uma gigante sueca que tá injetando dinheiro em guerra as custas de uma retrospectiva instagramável no final do ano.
O streaming não é a única possibilidade dentro da música e seguiremos, assim como sempre, escutando nossas bandas preferidas onde conseguirmos, seja em um pendrive percorrendo estradas, ou em um violão desafinado no intervalo da faculdade.
Resolvemos finalizar nossa pesquisa de um jeito inusitado: talvez a gente tenha pirateado diversos artistas do independente do Brasil e colocado eles dentro de pendrives. Talvez a gente tenha percorrido as rodovias em busca de caminhoneiros. Talvez a gente tenha entregado esses pendrives para eles e cobrado um feedback honesto.
Nosso objetivo? Queríamos colocar artistas no mundo físico e abrir um debate com a cena independente sobre formas de fugir do streaming e alcançar pessoas de uma forma muito mais interessante, direta e marcante. Quer dizer que caminhoneiros são seu público alvo? Não necessariamente, embora em alguns casos isso tenha acontecido.
Sim, gostos musicais são coisas bem particulares, mas enquanto o trabalho de artistas estiver dependendo de métricas, impulsionamento, algoritmos e plataformas que operam de maneira obscura, não haverá escapatória.
Mande nossa pesquisa para aquele seu colega que tem uma banda e está tentando furar a tal “bolha”. Quem sabe ele está em nosso pendrive e quem sabe ele começa a pensar no pendrive dele.
Você confere essa noção ação aqui:
O Lollapalooza de 2026
Nesta quinta-feira, o Lollapalooza Brasil anunciou seu lineup e conseguiu um feito: pela primeira vez em anos, a seleção de artistas foi amplamente elogiada pela crítica e pelo público.
Nós, da 300Noise, também gostamos da curadoria. E acreditamos que sua melhora passa pelo diagnóstico que realizamos em 2024: em meio a uma crise de identidade, é importante se reinventar.
O festival conseguiu operar simultaneamente em duas frentes que parecem ter se resolvido: o pop ganhou corpo e qualidade com artistas relevantes para público, mas em especial pela crítica, enquanto as escolhas das linhas finas do line resgataram nomes verdadeiramente interessantes e não reciclagens de anos anteriores.
As inovações como a chegada do k-pop do Katseye, renomados, mas pouco óbvios como Cypress Hill e artisticamente vanguardistas como Papangu e Crizin da Z.O. - destacados por esta humilde 300Noise desde 2020 -, fazem com que a crise de identidade pela qual o Lolla passava, de alguma maneira, seja resolvida.
Foi inevitável deixar passar os diversos comentários que compararam o lineup do Lollapalooza 2026 com o, já não mais presente, Primavera Sound SP. Em especial, a memorável edição de 2022. O aspecto importante da comparação está na diferença de tamanho de ambos, o Prima teve a metade do tamanho do Lollapalooza daquele ano.
Isso pode indicar algumas coisas sobre o futuro dos mega-eventos e uma abordagem mais segmentada para grandes públicos, ou melhor, uma nova forma de convergir multidões através de caminhos não tão massivos. (a ver).
A fórmula parece se adequar ao consumo de músicas de nicho que se conecta em alguns pontos e cria pontes entre públicos que podem estar antenados em um Yousuke Yukimatsu por causa de sua Boiler Room e, ao mesmo tempo, estão dançando ao som de Addison Rae.
A aplicação da lógica viral nesse lineup não está apenas situada na força numérica, mas foca em legitimação midiática, ou ao menos, sua devida atenção. Saem fenômenos ou hits de instantes e entram as pessoas que dominam a lógica deles eles. Doechii foi reconhecida pelo Grammy antes de Anxiety, não custa lembrar.
Essa mudança que trabalha de maneira antagônica à estratégia de música de massa, ou, mega headliners (ano passado falamos sobre a crise dos headliners, lembra?). Talvez a mudança seja suficiente para um debate sobre a idade dos frequentadores do evento e como isso afeta o ecossistema de consumo e produtos a serem impulsionados (para marcas patrocinadoras, por exemplo).
E por falar em headliners: é importante notar que, dentre todos os Lollas sudacas, apenas o Brasil não veio com um nome nacional destacado na lateral esquerda do flyer. Jogada curiosa e que pode levantar uma pulga sobre cachês de grandes nomes desse nosso Brasil.
Mas é aqui que a gente precisa voltar aos nomes nacionais e destacar também que essa talvez tenha sido a maior surpresa do catálogo do festival. Passando longe das figurinhas carimbadas e mostrando olhar atento às novidades de impacto criativo, o Lolla acerta em trazer coisas diferentes e que saem do eixo Rio-SP. Um quarto dos nomes estão na região Nordeste, mas o Norte ainda se mostra ponto de resistência dentro dessa edição.
O detalhe que chama atenção é a variedade de estilos apresentados pelos brasileiros: temos pedras fundamentais do manguebeat e do reggae (Mundo Livre S.A. e Edson Gomes), mas também a nova leva do shoegaze e Hip hop (Terraplana e Febre90s).
Se o festival conseguirá resgatar a sua relevância cultural e o sucesso de público de outrora, mercadologicamente falando, é outra história. Ser pop sem se entregar ao piegas e manter a raiz alternativa pode ser um caminho. É uma ótima resposta aos críticos. Que bom que eles foram ouvidos.
Saia do celular e…
Vá assistir uma CPI…
Ok, por essa você não esperava. Bem, talvez você tenha visto algum corte sobre a CPI dos “pancadões” nas redes sociais, mas recomendamos assistir o debate na íntegra e, claro, chamar atenção para formas distintas de tratar figuras públicas (Virgínia x Chavoso da USP).
Esse debate é super importante para a gente entender a organização política da extrema-direita contra o funk, ou utilizando dele para atacar a cultura periférica em várias frentes.
Ver o filme do Turnstile…
Assistimos o filme da maior banda de hardcore da história (ao menos numericamente falando). Never Enough é um apanhado visual que expande o curta do disco anterior, Glow On, e surfa em um orçamento muito maior. Agora a banda usa jet-skis, explode dezenas de pelúcias e faz takes belíssimos com pássaros voando sobre o mar.
O problema é que o filme não passa disso. Um desejo de expandir algo que já tinha sido feito, em uma mesma estética, com planos que seguem uma mesma lógica. No final, o filme não muda a experiência do disco, serve apenas como um deleite visual.
Se estivéssemos no Letterboxd, um 2/5 estaria de bom tamanho. Talvez 1,5/5 pela presença de Rick Rubin em uma das cenas.
Vá acessar o site da 300noise (ok, você talvez precise do celular para isso, mas segue o baile!)
Nosso site está de cara nova e tem um apanhado de materiais nossos para download. Você pode se divertir explorando nossas pesquisas e, em breve, até mesmo (conteúdo removido porque aqui a gente não vai dar spoiler). Agradecemos ao nosso mestre dos computers G.G pelo trabalho e esforço no projeto.
Comprar um merch:
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso, temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem a próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.
Ouvir os lançamentos do mês
Loopcinema – LOOP:GLAMOUR
Lançamento nacional interessantíssimo de Loopcinema, nova voz da música que você vai penar para rotular. Influência grande do Imaginal Disk de Magdalena Bay, mas também alguns recursos legais de colagem que lembram Avalanches. Um disco groovado que tem espaço até para o funk, glitch pop e jazz. Aproveita e visita o site do disco loopcinema.com.br
Pelados – Contato
Nova empreitada da banda indie que tem uma assinatura bem consistente no humor da pós ironia e passeia entre alguns estilos carimbados na cena alternativa brasileira. As letras são um destaque, mas talvez você seja cool demais, ou normal demais pra elas. Contato é um disco que traz ótimos momentos, mas também esgota recursos criativos de maneira veloz. Dá uma atenção nesse disco, os pelados sabem demais.
Floating - Hesitating Lights
O que você vai encontrar aqui é uma experimentação, no mínimo, curiosa. Death Metal e Post-punk. Parece estranho, né? E é. Uma mistureba nada convencional. Às vezes funciona, horas não. A banda ainda precisa encontrar o ponto de equilíbrio (se é que isso é possível). Vale pela curiosidade.
Earl Sweatshirt - Live Laugh Love
A carreira de Earl sempre foi marcada por letras que abordavam depressão, ansiedade e traumas a um nível bastante pessoal. Neste último lançamento, a coisa muda um pouco de perspectiva. Desafios da paternidade e da construção de uma família parecem ser um tema central na obra. As conquistas, o prazer de poder celebrar e compartilhar a vida com aqueles que você ama. É ótimo ouvir Earl rimando sobre esses temas depois de anos acompanhando seus momentos mais sombrios.
baan - neumann
Receba o melhor de todos os mundos. Sludgezão, riffs lentos, disonantes, guitarras distorcidas, "arranjos-gaze", para de repente ser pego de surpresa por levadas de hardcore. A produção é envolvente, te engole e faz uma hora passar rapidinho.
Deftones - private music
Finalmente! Depois de dois álbuns bem medianos, os caras voltaram com um amálgama de tudo explorado pela banda. O retorno de Nick Raskulinecz na produção traz o peso, as melodias, guitarras etéreas e os riffs hipnóticos. Tudo que a gente ama, menos os gritos do Chino (sentimos falta disso, tá?). O álbum brinca com quase todos os estilos que eles flertaram ao longo dos anos, mas sem soar uma grande salada de autorreferências. O melhor da banda desde Koi no Yokan e isso não é uma discussão.
Celestaphone & Dealers of God - Cult Subterrânea
Sinceramente, eu não sei se entendi. Veja bem, imagine que o Frank Zappa e o The Residents decidem gravar um álbum de rap temático sobre aliens. Nada soa muito convencional; os instrumentais variam de barulhinhos de horror espacial, para jazz e depois country psicodélico.É tipo um rap progressivo? Sei lá, escute esse negócio e tire suas conclusões; é uma experiência divertida, garanto.
The Armed - The Future Is Here and Everything Needs to Be Destroyed
Disco bem sólido do grupo que andava deslocado e resolveu respirar em suas origens. Lançamento interessante, mas que acaba se apagando quando olhando para o Ultrapop.
Street Sects – Dry Drunk
O melhor trabalho do duo texano de electro-industrial até então. Som violento, pesado, incômodo e cheio de aberturas para linhas mais melódicas entre berros e chiados. Segue a tradicional atmosfera de thriller noir, mas com um fluxo bem mais dinâmico. Não é para todo mundo, mas pode ser para você...
S.A.C. da 300Noise:
Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!
Como faço para colaborar com a 300Noise?
R: mande sua proposta aqui mesmo, ou em nosso e-mail: 300noise@gmail.com
Dá para comprar o pendrive da 300Noise?
R: Item raro. A única forma de comprar ele é localizando um caminhoneiro que tenha esse pendrive e fazendo uma proposta. Boa sorte!
Quais bandas estão no pendrive da 300Noise?
R: Boa tentativa, Polícia Federal…
Vocês aceitam envio de material de bandas? Qual a melhor maneira de enviar?
R: Utilizamos o Groover para receber material e oferecemos consultorias e outros trampos. Quer a visão da 300Noise em seu projeto? Entre em contato no 300noise@gmail.com
Quer dizer que você trabalham com consultoria e pesquisa para bandas ou empresas?
R: Sim, estamos operando em várias frentes. 300conteúdos, 300empresas, 300festas e em breve 300pendrives (ok, esse é brincadeira!)









