Newsletter da 300noise #9 - Setembro em alta velocidade
Talvez a gente esteja pagando barato demais em ingressos para shows! Um passeio pela alucinação sonora, projetos estranhos e música de qualidade.
Passamos por um mês e tanto. Após um viral não intencional e discussões intermináveis sobre a privacidade e uso de dados dentro e fora da indústria da música, fomos obrigados a refletir sobre… bem, sobre nós mesmos.
Entre uma cúpula da ONU com diversos reconhecimentos da Palestina (material que adiantamos em nosso texto sobre o “Together for Palestine”) e um mega festival que quase ninguém pareceu se importar muito, o mundo da música girou.
Para começo de conversa, Daniel Ek anunciou sua saída (pra inglês ver) como CEO da Spotify. O Serasa publicou sua pesquisa sobre o comportamento financeiro em relação a shows e festivais, assim como o relatório da WrapPRO/Pollstar sobre o setor de entretenimento ao vivo. E entre essas duas coisas, o CEO da Live Nation reclamou do preço dos ingressos: eles estão muito baratos.
Apertem os cintos, estamos engatando uma misteriosa marcha 6 para tratar da tudo isso aqui e agora. Mas antes…
“O show está subvalorizado e tem estado assim por muito tempo”
Na última semana, Michael Rapino (CEO da Live Nation), disse durante uma conferência que os preços de ingressos estão abaixo do ideal, ou do esperado. E em um malabarismo retórico, o executivo criou uma comparação absurda entre um show da Beyoncé e um jogo do Lakers.
Bom, vocês devem estar cientes de que a indústria do showbiz não cansa de surpreender (quase nunca positivamente). Em síntese a fala de Michael Rapino passa por 4 tópicos importantes e que merecem um pouco de atenção.
1 – Preço médio dos ingressos:
Uma justificativa para tratar do preço e seu possível aumento está na média de custo de ingresso: 72 dólares. Argumento curioso, levando em conta os mais diferentes tipos de apresentações musicais existentes.
Ou seja, você gasta menos para ver seu primo tocando no bar da esquina do que pra assistir um show da Lady Gaga. E existem mais primos tocando em barzinhos do que Lady Gagas por aí...
Em 2024 o custo médio para as 100 maiores turnês mundiais foi de 135$ (Pollstar)
2 - Monopólios
Em 2023 a Ticketmaster (Live Nation) teve grande destaque na mídia por conta de sua política de taxas. Um caso interessante foi em relação ao The Cure que priorizou uma turnê com preços acessíveis para ingressos. Para a surpresa de Robert Smith, os fãs foram impactados com taxas absurdas durante a compra de ingressos. No final, era possível gastar mais em outras cobranças do que no ingresso em si.
Além disso, a empresa tentou inserir diversas ideias para otimizar a venda de ingressos, ou proporcionar ainda mais dor de cabeça para fãs. A primeira delas foi justamente criar uma categoria própria de venda para quem realmente gosta do artista (deu errado). E não podemos nos esquecer dos preços dinâmicos (taxa do hype, desconto do flop).
Bom, é curioso pensar que a maior empresa do mercado esteja falando sobre subvalorização de eventos que são vendidos através de sua própria plataforma.
Na última semana o governo britânico pediu uma revisão sobre os preços dinâmicos da empresa por conta dos aumentos repentinos dos preços para a turnê do Oasis. E ao mesmo tempo a Câmara de Comércio dos EUA acusou a Live Nation / Ticketmaster de propositalmente ignorarem práticas cambistas em benefício próprio.
Vale destacar que a Ticketmaster detém 80% das vendas de ingressos para grandes shows. E que a empresa está na mira para ter uma separação da Live Nation em uma política antitruste.
3 – A realidade crítica do setor de grandes shows e festivais.
Se a 300noise falou um pouco sobre isso através do mercado brasileiro e seus festivais, também podemos olhar para o cenário norte-americano e notar alguns sintomas desse momento. Voltando para os dados da Pollstar, temos uma queda de 8% nas vendas de ingressos em shows entre 2023 e 2024 na América do Norte. Porém essa mesma queda acompanha um crescimento no preço dos ingressos.
Os resultados desse ano ainda dependem do último trimestre e vão indicar se a lua de mel pós covid chegou ao seu final, ou se ainda há algum respiro marcado por injeção de investidores e mais ajustes dentro dos preços / modalidades de venda.
O verão dos festivais do hemisfério norte foi bastante singular nesse aspecto. Tivemos cancelamentos por diversos fatores: questão climática, boicote, viabilidade financeira e questões políticas, como a perseguição do ICE nos EUA. O Music Festival Wizard trouxe uma lista de quase 100 festivais cancelados e você pode checar aqui.
No fundo, há algo ainda mais complexo do que medir a possível (ou inimaginável) sustentabilidade desse tipo de evento.
4 – O público e o dilema financeiro
Talvez o fator mais imprevisível e curioso para tratar sobre valor de ingressos e que certamente passa pelos três tópicos anteriores em diferentes níveis. O público, o fã, o indivíduo que deve ser constantemente convencido de que gastar mais da metade de um salário mínimo em um show vale a pena.
Podemos fazer dezenas de pesquisas para prever algum comportamento ou tentar enxergar erros cometidos em anúncios que não vão tão bem como o esperado, mas no final, é difícil medir acúmulos de coincidências, ou sobreposição de casualidades.
Migrando um pouco para o nosso contexto, uma pesquisa feita pelo Serasa divulgou que ¼ dos brasileiros já se endividou por conta de shows. Na mesma pesquisa, 44% declara que o valor do ingresso é a principal barreira para comparecimento. Em 2024, também pelos dados do Serasa, 70% dos entrevistados declararam que não pagariam mais do que 300 reais por um ingresso.
No final, a dificuldade de converter pessoas talvez diga mais sobre o tamanho real de um evento x tamanho imaginário concebido entre delírios marketeiros e dados abstratos de conversão, seja por produtoras, artistas ou ambos. Algumas contas não batem, porque elas constantemente são feitas no fim da navalha.
E os mais ligados já se antenaram: se um show, ou um festival, não está mais vendendo tanto quanto antes, é hora de inventar o pacote vip 2.0, o club Gold Diamond Plus, a área premium Exclusive Platinum etc, etc, etc.
As 10 empreitadas mais inusitadas da 300noise
Na última semana batemos uma marca significativa: 10 mil seguidores no Instagram. E isso tem alguma importância? Bem, depois de alguns anos escrevendo sobre música e cultura sem os convencionais puxa-saquismos da indústria, talvez seja algo a ser comemorado. Com isso, aproveitamos para falar de 10 projetos que marcaram nossa trajetória.
1 – Festival de metal em uma garagem
Dez anos atrás estávamos fazendo festival independente de metal pela Zona Norte de São Paulo. Nessa época a gente não tinha nome e muito menos planos, porém a proposta era clara: ocupar espaços não convencionais com música.
2 – Festival de música, arte e debate
Em 2019 resolvemos fazer um evento um pouco diferente. Convidamos artistas para um pequeno festival em um teatro da zona central da cidade. Incluímos na programação mesas de debate, exposições de arte e também a projeção de pequenos curtas produzidos por nós mesmos. Isso virou lost media (propositalmente).
3 - Uma pesquisa sobre os impactos da pandemia no setor da cultura
Foi em 2020 que migramos para o formato mais conhecido da 300noise. Sem a possibilidade de intervenção nas ruas, optamos pelo conteúdo virtual. Nossa equipe já estava espalhada por diversos cantos e conhecimentos e decidimos unificar nossas expertises em formato de coletivo cultural. Nesse momento, nos organizamos para pesquisar e entrevistar jovens para nossa primeira pesquisa, Lente de Aumento.
4 – O Parque Reverbera
Durante a pandemia, e com o apoio da Prefeitura da Cidade de São Paulo, produzimos um projeto multimídia sobre o Carandiru; desde a formação do bairro, a construção do presidio, sua implosão, até os dias de hoje, com o Parque da Juventude e a Etec das Artes. Fizemos um documentário, uma zine, uma série de podcasts e um evento de lançamento do projeto.
5 –Banco de Dados dos festivais
O interesse por festivais surgiu da vontade de analisar sua composição e a forma como eles acabam dialogando com o massivo através da música. A composição de programações de alguns eventos pode ser uma ferramenta muito interessante para a compreensão de apelo midiático, construção de público, tendências e valorização (ou não) de artistas nacionais e internacionais. Curiosamente esse foi um tópico que sempre nos rendeu muitos comentários e compartilhamentos (pelo bem e pelo mal, rs). Desde 2020 alimentamos um banco de dados dos principais festivais de SP.
6 – Ruído Global
Um projeto que temos um certo carinho, não vamos mentir. Ruído Global é um podcast de música e história. Analisamos a produção musical e cultural de um local através dos impactos de momentos cruciais em sua história. Temos episódios sobre a independência da Irlanda, falando de rock celta, u2 e o período do The Troubles. Temos um episódio sobre a ocupação americana no Japão pós segunda guerra com muito city pop e jazz. Temos um episódio sobre a música produzida em várias partes da Palestina. Sério, dá uma ouvida.
7 – O Design Musical do Brasil
Pesquisamos, redesenhamos e publicamos diversos designs de selos e gravadoras brasileiras do século passado. Muito material que não estava digitalizado e que agora faz parte de um acervo virtual gratuito.
8 - Seletor Fantasma
Nossa pesquisa sobre os artistas fantasmas que estão assombrando as playlists do Spotify. Um trabalho que envolveu a escavação do perfil de centenas de perfis dentro da plataforma de streaming musical mais popular do mundo. Essa é uma minissérie curtinha, você ouve em uma sentada.
9 – O Mês da Positividade
E se a gente passasse um mês inteiro publicando apenas conteúdos positivos? Esse trabalho quase custou nossa própria reputação. Já publicamos um relatório inicial sobre essa nossa aventura, mas semana que vem entregaremos uma versão mais robusta. Essa, já avisamos, fará parte do conteúdo premium. Você pode ler e nos ajudar a continuar produzindo conteúdo. Considere uma assinatura paga em nossa plataforma.
10 - Pendrive: o consumo musical das estradas
Nossa pesquisa sobre os pendrives de caminhoneiros nos colocou na estrada para investigar o mundo da música fora da internet. Nesse processo, aprendemos muito sobre o offline, sobre os sentimentos que uma música pode despertar e o papel dela em uma das profissões mais interessantes de se analisar. No final, fizemos nosso próprio pendrive e distribuímos nas BRs. Você chegou a ver?
Mais uma vez, agrademos todo o apoio e comentários que recebemos em todos os lugares. A 300noise se compromete a continuar entregando o conteúdo afiado e bem posicionado que vocês esperam. Temos coisas boas vindo pela frente! Quer dar um alô? Quer conversar com a gente, mande uma mensagem!
Saia do celular e…
Vá assistir um show de jazz…
O Sesc Jazz está de volta e se você está lendo isso de São Paulo e região, você não pode deixar de conferir a programação e ver coisas super legais no precinho. Algumas coisas já apareceram por aqui anteriormente como Etran De L’Aïr e seu rock do Sahel ou o armênio Tigran Hamasyan .
A programação completa está aqui.
Vá descobrir um estilo musical diferente…
O site Every Noise at Once é uma biblioteca de todos os estilos musicais do mundo. Bem, a ideia é mais ou menos essa. Você pode explorar coisas diferentes, nomes inusitados e integrar mais profundidade para a pesquisa através das páginas secundárias e dos principais expoentes de cada estilo em questão.
Vá acessar o site da 300noise (ok, você talvez precise do celular para isso, mas segue o baile!)
Nosso site está de cara nova e tem um apanhado de materiais nossos para download. Você pode se divertir explorando nossas pesquisas e, em breve, até mesmo ter uma biblioteca com muito material extra desses 10 projetos que separamos aqui e (conteúdo removido porque aqui a gente não vai dar spoiler). Agradecemos ao nosso mestre dos computers G.G. pelo trabalho e esforço no projeto.www.300noise.com.br
Comprar um merch:
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso, temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem a próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.
Ouvir os lançamentos do mês:
Maruja - Pain to Power
Fazia anos que os ingleses não produziam músicas tão empolgantes quanto nos últimos tempos. Depois de ganhar atenção com uma sequência de EPs de tirar o fôlego, o quarteto se consolida como um dos maiores nomes desta nova cena londrina (conhecida como “Windmill Scene”). Mas afinal, o álbum vale o hype? Se você acredita que o RATM e Alice Coltrane têm muito em comum, então sim. As canções são agressivas, cheias de energia, acompanhadas de um lindo saxofone, no qual a tensão e a calmaria são cuidadosamente construídas através de repetições rítmicas e melodias que beiram a cacofonia em diversos momentos. As letras, bastante políticas e poéticas, tornam este disco um verdadeiro retrato dos tempos ansiosos que temos vivido. Talvez o hype seja maior que a entrega em alguns momentos; no entanto, não podemos esquecer que é só o começo para estes meninos de Manchester.
Dying Wish - Flesh Stays Together
Em um mar repleto de bandas revivendo a era de ouro do metalcore, o Dying Wish sempre esteve bem ancorado em sua proposta. Nesta nova empreitada, as melodias ganham grande destaque nas composições, guiadas pela belíssima voz de Emma Boster. O que ouvimos é uma verdadeira aula de como manipular a voz, em que gritados agudos, graves e limpos vão temperando as composições ao lado de ritmos bem groovados, deixando de lado os característicos riffs de death metal melódico. A produção dá o peso e o timbre necessários para as guitarras; porém, em alguns momentos, soa um pouco sem brilho. Um sólido trabalho para uma das bandas mais originais da cena.
Faetooth - Labyrinthine
Pegue seu manto preto, vá para uma floresta, acenda uma fogueira e coloque este álbum para tocar. O clima está perfeito para você curtir um Doom/Sludge Metal arrastado, etéreo e atmosférico das bruxinhas californianas. É quase um álbum feito pela A24, repleto de momentos pesados e sombrios, vindo diretamente de um sinistro sabá, intercalado com partes mais introspectivas e meditativas. Todos os clichês do genêro estão aqui, feitos de maneira impecável, sem soar genérico e plástico. Não perca tempo, espere a próxima lua cheia e dê play nesta belezinha.
Rochelle Jordan - Through the Wall
Álbum chique e elegante para quem está órfão de uma boa mescla de house com pop. O disco tem sintetizadores no capricho, ótimos caprichos vocais e uma mescla interessantíssima de referências do R&B 2000.
NAIMACULADA – A Cor Mais Próxima do Cinza
É sempre um alívio quando uma banda de “rock alternativo” traz algo interessante para a mesa. Não é só sobre o frescor para a música brasileira, mas pelo recado: vale a pena se arriscar. O disco de estreia do grupo passeia por um espaço selvagem entre o jazz, o rock, a MPB, o prog, a poesia, e a paisagem urbana de São Paulo. Confia, funciona. E veja, já tem gente resgatando a vanguarda paulista pra se referir a este trabalho. Bom, veremos.
Rodrigo Ogi e Nill – Manual Para Não Desaparecer
Uma coleção de ideias. Como álbum, talvez não seja um trabalho tão consistente, mas os brilhos (e temos diversos) chamam atenção. Além disso, as participações agregam muito. Vai dar uma sacada.
Geese – Getting Killed
O terceiro disco da banda é meio que tudo isso aí mesmo. Traçando um caminho mais particular e se guiando por muita quebra de expectativa, o grupo conseguiu aglutinar seus maiores acertos do passado e caminhar pra uma sonoridade ainda mais interessante. Melhor disco do Geese e certamente um dos melhores discos do ano.
Douglas Germano – Branco
Discão do já conhecido sambista Douglas Germano. Daqueles trabalhos introspectivos e energéticos, com escolhas afiadas e não convencionais ao se tratar de produção e mixagem. As cordas e sopros, no capricho. A lírica, afiada.
S.A.C. da 300Noise:
Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!
Como faço para colaborar com a 300Noise?
R: mande sua proposta aqui mesmo, ou em nosso e-mail: 300noise@gmail.com
Vocês aceitam envio de material de bandas? Qual a melhor maneira de enviar?
R: Utilizamos o Groover para receber material e oferecemos consultorias e outros trampos. Quer a visão da 300Noise em seu projeto? Entre em contato no 300noise@gmail.com
Onde acesso os projetos da 300noise?
Qual o próximo projeto e pesquisa de vocês?
R: Precisamos de férias!!!
Quer dizer que você trabalham com consultoria e pesquisa para bandas ou empresas?
R: Sim, estamos operando em várias frentes. 300conteúdos, 300empresas, 300festas e em breve 300pendrives (ok, esse é brincadeira!) Quer entender melhor o que oferecemos? Quer contratar a 300noise? Mande um email para 300noise@gmail.com
















