O papelão dos mega-blocos e o Bad Bunny - newsletter #14
não vamos falar do jet-ski
fevereiro em blocos
O CARNAVAL DE 2026 é inevitavelmente o grande tema da newsletter de fevereiro da 300Noise.
Nossa equipe multidisciplinar se espalhou pelas ruas para averiguar este mundão de meu Deus e para aprontar várias peripécias na festa popular que movimenta bilhões.
Em meio ao apocalipse, o brasileiro dança. Este é o tema de um dos vídeos imbecis mais geniais de todos os tempos (que você pode conferir aqui).
O nosso samba virou negócio milionário, e a 300Noise, como sempre, está de olhos na dinâmica para entender o que foi possível aprender com a festança deste fevereiro.
2026: a morte simbólica do Carnaval de rua em SP
Faz algum tempo que aqui na 300Noise nós discutimos sobre o que os mega-eventos têm de problemático. Não é necessariamente algo contra os eventos serem… grandes, mas mais objetivamente sobre a necessidade inesgotável de eles se tornarem… maiores. A lógica de mercado que passa por esses arranjos começa a criar problemas estruturais.
Os casos não foram poucos nem isolados. A Marinada de Marina Sena teve problemas em BH, Ivete no Rio, assim como em São Paulo, onde outros mega-eventos como Calvin Harris (nos recusamos a chamar de bloco) foram marcados por medo e delírio para o público, mas com números superlativos para patrocinadores e para a venda de cotas publicitárias da prefeitura.
A gestão municipal de São Paulo, por exemplo, optou pelo corte do apoio aos blocos mais modestos em tamanho. Isso consolidou uma transição na capital paulista do carnaval como (simbolicamente) um evento tradicional da cultura popular para um frankenstein de aglomerações patrocinadas. Isso não é novidade, mas avançou freneticamente em 2026. Mas a falta de infraestrutura surpreendeu. Se grandes eventos usualmente têm algum nível de problemas, o Carnaval de 2026 no Sudeste (e esse marco territorial é importante) ficou marcado pelo caos.
O êxodo paulistano em direção a Minas no feriado foi um marco: BH teve 6 milhões de foliões, dentre os quais 350 mil eram turistas. A enorme maioria deles era paulistanos, de acordo com todos os belorizontinos com quem conversamos. O retrato deste movimento é a busca por um Carnaval mais tranquilo ou mais autêntico, no sentido de blocos de tamanho médio, com propostas mais autorais, distantes da enormidade multitudinal verificada nos grandes redutos da folia de rua paulistana (Ibirapuera, Augusta, Consolação).
No fim, o que queremos dizer é que a necessidade de transformar o Carnaval em um produto cada vez mais rentável em diferentes frentes — patrocínio para os blocos gigantes, redução de patrocínio para os médios e a chegada dos cordões VIP — pode afastar mais o público do que trazê-lo para perto.
Se a infraestrutura não é suficiente para receber grandes quantidades de pessoas, se os eventos serão marcados por uma lógica cada vez mais de consumo (e não da libertação) e se uma parte do público entusiasta do evento sai da cidade para curtir a festa, o “maior Carnaval do Brasil” — o de São Paulo, com 17 milhões de pessoas — é só um número. E o efeito para as marcas patrocinadoras se infla com as estatísticas. E aí se esquece que Carnaval é sobre gente. E talvez o importante seja mirar no melhor Carnaval do Brasil.
VOY LLEVARTE PARA… LA NFL?
É bem provável que você, leitor desta newsletter, tenha ido ou conhecido alguém que foi a um dos shows do Bad Bunny em São Paulo. O Benito conquistou o Allianz Parque e fez um show histórico. E, dias antes, fez uma apresentação icônica no Super Bowl, que levantou suspiros de uma grande parte dos setores anti-EUA aqui em nossa terra.
E a 300Noise é fã do Benito. DtMF ficou em nosso primeiro lugar como disco internacional do ano passado. A ideia aqui não é criticá-lo, mas mostrar como campanhas publicitárias às vezes cumprem realmente os objetivos necessários.
Te faço uma pergunta, leitor: você sabe o que diabos é um field goal? Jardas? Conversão? Overtime? Eu não faço a mínima ideia. O público latino é extremamente resistente ao futebol americano justamente porque já temos um futebol melhor para jogar. O público latino e de esquerda tem uma dupla resistência: porque é futebol e é americano.
Além de Bad Bunny ser o artista mais ouvido do mundo, o preço que se paga para enfurecer 27% dos EUA (a base de apoio consolidada do partido Republicano, segundo a Pew) é ganhar aproximação com um mercado potencial de mais de 600 milhões de pessoas, contando os países da América Latina, além dos próprios latinos dentro dos EUA.
Desde 2022, a International Series da NFL levou jogos para fora dos EUA, mirando Europa e América Latina, e destacamos os jogos no Brasil (foram dois em SP com casa cheia e, neste ano, teremos no Maracanã) e no México (que recebe jogos desde 2016).
Desde que Jay-Z assinou com a NFL (em 2019), os shows de intervalo acabaram por se tornar mais politicamente carregados (ou seriam demograficamente direcionados?) para um público fora do óbvio, afinal, os óbvios sempre vão assistir ao esporte.
O show de Bad Bunny foi lindo? Foi. O intervalo do Super Bowl também? Claro. Mas mostra como comprar uma treta política pode beneficiar os interesses mercadológicos de uma marca em expansão. Não se surpreenda se, nos próximos anos, tivermos artistas britânicos ou da Ásia Oriental (China ou Coreia do Sul) no palco do intervalo mais caro da TV norte-americana. Aliás, o caso serve para mostrar como a música pode trazer até o público mais difícil para teus olhinhos.
SAIA DA INTERNET E VÁ…
ESTUDAR?
Nesta sexta-feira (6), a 300Noise estará no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, em São Paulo, apresentando mais detalhes sobre nosso estudo “Pendrive: o consumo musical das estradas”.
A nossa equipe estará lá para discutir mais sobre distribuição musical offline e bem… como chegamos nos caminhoneiros, e o que isso pode significar para você, artista, criador de conteúdo ou só curioso mesmo.
O evento é gratuito, mas precisa de inscrição online através deste link. A palestra é às 19h na Rua Dr. Plínio Barreto, 285 - 4º andar, bairro da Bela Vista, em São Paulo. A estação de metrô mais próxima é a Trianon-Masp.
O QUE ESCUTAR
DJ Ramon Sucesso - Sexta dos Crias 2.0
DJ Ramon Sucesso não é mais novidade dentro da música brasileira, não é mais um perfil só de Instagram que posta seu corte de sexta para abençoar o fim de mais uma semana. Em 2024 lançou seu primeiro vinil e neste ano volta com a sua continuação. Na minha humilde opinião, o cara é o Jimi Hendrix da controladora, brinca com a música, impossível você ouvir e não entender o nível de talento que esse cara tem. Se a música eletrônica tem uma linguagem própria pra fazer seus lançamentos, DJ Ramon Sucesso conseguiu fazer com que, ao mesmo tempo, você ouça algo gravado mas que é também orgânico e único de uma apresentação ao vivo. Te deixa de xereca rompendo o espaço-tempo.
Luiz Barata & Nitcho - ETERNO MENINO LEVADO
Se você está procurando aquele tipo de álbum de rap que traz tudo que o bebop pode oferecer, só que atualizado, dá uma olhada neste novo lançamento do Luiz Barata e Nitcho. Desde o ano passado, o Luiz Barata me chamou atenção com seu lançamento Pragas Urbanas, sabendo equilibrar bem o tema do álbum e o particular de cada música. Neste novo material, com a ideia da mulecagem/juventude, que é muito ligada ao hip-hop, há uma nova evolução na parte gráfica do álbum, na sua produção, nas narrativas e na cadência das músicas.
loopcinema - My-Lovely-Yellow-Kombi
Acho que é a artista mais interessante que eu ouvi nestes últimos tempos. Numa sequência de lançamentos incrível, loopcinema brinca com diferentes linguagens e referências. São muitos instrumentos diferentes, noises e glitches sem deixar de lado um swing e um clima leve. Em especial nestes seus últimos lançamentos, loopcinema parece fazer uma nostalgia futurista, que te leva pro começo dos anos da Internet, as televisões a tubo, mas também carrega muito da música atual, cheia de transições, sem muitas repetições e constante se transformando.
By Storm - My Ghosts Go Ghost
Das cinzas do antigo Injury Reserve formou-se o By Storm. Nesse sentido, este seu primeiro trabalho soa tal qual uma continuação indireta do surrealismo apocalíptico depressivo do By the Time I Get to Phoenix, de 2021. A dupla continua sem medo de destruir barreiras de gênero, além de experimentar sem receios. As batidas viajam por acordes e arpejos acústicos; outras se aproximam mais dos sintetizadores eletrônicos e até instrumentos de sopro aparecem. Os ritmos são bem quebrados e pouco convencionais, o que traz aquela estranheza já esperada. As escolhas de produção também são bem interessantes; em certos trechos, a progressão das músicas é densa e caótica, os vocais se confundem com as batidas, contudo há sempre uma clareza nos elementos. É como se você estivesse em uma tempestade de areia e, não obstante, conseguisse ver todos os grãos que passam e tocam em você. Liricamente, o grupo ainda se encontra naquela atmosfera letárgica, mesmo com diversos temas, a exemplo de amizade, luto e solidão, sendo desenvolvidos. Por vezes, a execução de algumas ideias na primeira metade não é tão bem direcionada quanto no restante do álbum, mas isso é apenas um detalhe. Se tem alguém buscando levar o rap a novos horizontes, definitivamente são esses caras.
Converge - Love Is Not Enough
Todo play do Converge é um evento. As expectativas sempre são altas, sendo quase sempre correspondidas. É o caso de Love Is Not Enough? Com certeza. Os tropos tão frequentes da banda, a citar a intensidade frenética da bateria e o peso dissonante das guitarras, tão característicos dos primeiros álbuns, são executados com maestria. O impressionante é a forma pela qual eles são capazes de se reinventar sem mudar demais. As ideias são desenvolvidas como uma evolução não linear, partindo da velocidade do início da carreira até chegar aos detalhes cadenciados das composições e experimentações mais recentes. A produção orgânica, quase ao vivo, faz cada elemento brilhar, riff a riff, grito a grito. Tematicamente, parece mais um álbum focado em ódio e ressentimento; entretanto, é curioso ver como as letras de Jacob Bannon buscam a reflexão, por intermédio de medos e traumas, para que ele e nós possamos nos tornar pessoas melhores para aqueles ao nosso redor. E isto é apenas uma parte de tudo que esse conjunto de músicas tem a oferecer. Um grande trabalho, reflexo de um momento conturbado da humanidade, marcado pelas sombras e pelas violências, bem como pela beleza que podemos extrair disso tudo.
Killing Pace - HCPM
Gosta de hardcore? Gosta de punk? Gosta de metal? Este lançamento é para você. Um perfeito amálgama dos três gêneros, com eventuais pitadas de powerviolence. As performances são avassaladoras. Não há muito espaço para composições que fujam das estruturas mais convencionais do estilo, todavia entregam peso aliado à agressividade na medida certa.
Mandy, Indiana - URGH
Esteja preparado para uma audição desafiadora, cheia de glitches, batidas eletrônicas superclipadas somadas a uma produção industrial densa e barulhenta. Haverá momentos dançantes seguidos por emaranhados de batidas ritualísticas cadenciadas, acompanhadas de profundas camadas de guitarra e grooves caóticos. As estruturas são estranhas: variam do techno dançante ao industrial barulhento catártico. Beira a cacofonia em alguns sons; são singelos os momentos de respiro. Para alguns ouvidos, pode soar meio “qualquer coisa”. Vai depender da sua proximidade com o gênero. Um trabalho arrebatador, feito para você colocar na sua trilha sonora de fim do mundo.
não se esqueça…
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso: temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.
Por fim…
S.A.C. da 300Noise:
Perguntas enviadas por vocês para a nossa equipe. Críticas, sugestões, dúvidas e tudo mais. Envie sua pergunta agora mesmo!
Gostaria de ver mais dicas de novos artistas brasileiros, já conheci muito graças a vocês!
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