Taylor Swift como reflexo de uma indústria em choque
O "antibratismo" e o último respiro de uma música pop sem propósito
Para acalmar os ânimos acalorados que esse título possa causar, devo dizer que esse texto pouco se aproxima de uma review. Não é um mergulho na jornada sonora proposta pela viga central da indústria, Taylor Swift. Aqui nós molhamos o pé nas águas de The Life Of a Showgirl para refletir sobre um ecossistema mais complexo do que a subjetividade da escuta.
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The Life Of a Showgirl é o 12º disco de estúdio de Taylor Swift e o 5º lançamento dessa década. Isso significa que praticamente não tivemos um ano sem falar da loirinha. Nesse meio tempo, também fomos impactados por uma turnê que foi das pistas ao cinema, um noivado com jogador de NFL, pulseiras de miçanga e um álbum duplo que ninguém entendeu muito bem.
Em síntese, os últimos 5 anos de Taylor são um belo caleidoscópio para se entender o mainstream musical porque, veja bem, estamos falando de uma artista que se arriscou na dobradinha Folklore + Evermore e emendou em um disco que tem Vigilante Shit (entendam como quiser).
Quantidade x qualidade
O problema principal dos excessos (mercadológicos) de Taylor se refletem em uma insuficiência de coesão (artística). E, novamente, isso tem pouco a ver com sua forma de construir narrativas e tratar da pessoalidade com auxilio de metáforas e objetos simbólicos. O que a loirinha nos entrega é, em síntese, uma caixa de pandora do consumo.
Se um disco feito por dois produtores diferentes, diversas edições de vinil, ou exaustivas campanhas de lançamentos digitais não são o suficiente para tratar desse excesso, talvez sua campanha burlesca para The Life Of a Showgirl cumpra essa missão. Taylor recheou a identidade visual de seu novo disco com falsas impressões. Alguns vão falar “gênia do marketing”, claro. Mas é difícil não enxergar uma aclimatação.
Uma Taylor que explora a sensualidade com mais liberdade, que traz um ensaio fotográfico mais íntimo e que, ao mesmo tempo, se encontra noiva e cercada de questionamentos políticos. A loirinha concentra seus esforços em se adaptar ao zeitgeist da música pop, ao invés de buscar uma evolução na própria carreira. Nesse momento, talvez isso nem seja um direcionamento pensado por vontade, mas necessidade.
Abocanhar mais pedaços do mercado musical é o motif das movimentações de Taylor, custe o que desgastar. E está tudo bem (para a artista e para os fãs) um disco da Taylor Swift não ser nada além de um conjunto de músicas medianas. A média é um conceito que serve também para agradar gregos e troianos.
E a leitura desse momento de carreira da Taylor pode nos ajudar a elucidar o enigma da indústria do pop. Qual o propósito da autenticidade?
Antibratismo musical
Actually Romantic, a dita diss track para Charli XCX, parece colocar mais luz sobre esse tema. Ao mesmo tempo que é uma faixa que aglutina os principais ingredientes narrativos da cantora, reforça uma dicotomia na construção de uma mística, ou mitologia musical. Isso porque Taylor é a antítese ao Brat de Charli. Um dos trabalhos está focado em dialogar com o deslocamento do centro para o nicho, o outro ainda se ocupa em atrair as pontas para um ponto de atenção único.
E veja bem, Actually Romantic criou esse paralelo, trouxe o Brat até seu disco, para abocanhá-lo. E, com isso, também criou um holofote para a discrepância entre duas formas de entender e criar música pop. Talvez seja por isso que seja tão difícil engolir uma Taylor que ofende alguém por uso de cocaína. Ela está domesticada demais para se valer de artifícios contraventores.
Idealmente, Brat não se lança ao mercado musical como produto massivo, mas consegue dialogar de maneira natural com seu público e também com quem o absorve em novas camadas de significados. É por isso que uma collab de Billie Eilish em Guess funciona e uma Sabrina na faixa título externa um desejo numérico.
Para as poucas escapatórias da música massiva, sobra o desejo de personificar algo essencialmente oco com todos os recursos disponíveis no campo da comunicação e do marketing. Mas vislumbrar um mundo de riscos musicais e artísticos para este campo é delirante. No truque de mágica de Taylor, o espectador nunca chega a vislumbrar a reviravolta, o prestígio. Ele fica eternamente com os olhos fixados no compromisso, na moeda que vai desaparecer.
O momento crítico do pop de massa
The Life of a Showgirl mostra um momento de crise para o pop sem propósito. É um disco que simbolicamente vai neutralizar recordes de venda e de reproduções em plataformas com uma simples dose de sinceridade. E isso nem vai ser imputado exclusivamente por críticos ou haters, mas pela forma como a música atual da Taylor seguirá sendo obsoleta para o desenvolvimento criativo do pop.
Não é apenas um álbum mediano, mas sintoma de um modelo que atingiu seu limite de expansão. E enquanto neutraliza recordes com facilidade, expõe uma verdade inconveniente: sucesso comercial e relevância cultural são itens raros e de difícil fusão. O ecossistema que Swift representa ainda funciona, mas cada vez menos diz algo sobre o momento em que vivemos.







Ótimo texto 👏 me remete a famosa frase repetida muitas vezes, a Taylor é a indústria e o seu novo álbum só reforça esse conceito
Agradeço pelo ótimo texto