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TEMPO QUEBRADO S2E2 - ENTREVISTA COM ALEXANDRE BAZZAN (MAPA DA MÚSICA AUTORAL)
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TEMPO QUEBRADO S2E2 - ENTREVISTA COM ALEXANDRE BAZZAN (MAPA DA MÚSICA AUTORAL)

Música autoral, centro e periferia da metrópole de São Paulo e uma nova ferramenta para artistas, casas de shows e público começarem a pensar seu território.

Você apoia a cena? Seja se você toca em alguma banda, cola em alguma cena ou só for em algum evento mais independente ou alternativo você provavelmente já ouviu ou vai ouvir essa pergunta. Ela é uma bandeira tão comum, às vezes tão repetida, que deixa de ser algo dito e se torna quase um dogma implícito, um clichê.

A grande questão é que essa pergunta no abstrato não significa muita coisa. O que é “apoiar a cena”? É dar uma grana para ir no show? É comprar os materiais de alguma banda? É ouvir música de bandas da cena independente? É compartilhar bandas novas e autorais?

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Tudo isso ajuda muito, sendo muitas vezes uma parte importante da economia que mantém algumas casas de show e bandas independentes e autorais vivas, continuamente lançando músicas e se apresentando. Mas é cada vez mais difícil defender a ideia de que a cena de música alternativa, autoral, independente, ou qualquer outro nome que usamos, consegue se sustentar ou ainda garantir algum tipo de equidade apenas com essa ideia de “temos que apoiar a cena”.

Em vários momentos do passado muitas cenas conseguiam se apoiar através do trabalho organizado de seus participantes, garantindo não só a sua continuidade mas também momentos de auto reflexão, debates e desenvolvimento da estética e jeito específico de se comportar e viver. Isso foi no Punk, no Hip Hop, Metal, Samba, Jazz e basicamente todos os gêneros musicais que temos atualmente.

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Em momentos em que o mercado se tornou mais excludente e desigual essa coletividade serviu como um caminho para subverter a exclusão, compartilhar equipamentos, saberes, espaço para garantir que cada movimento crescesse.

Assim como no caso de outras tecnologias, as redes sociais transformaram as ações das cenas musicais e seus movimentos populares. A participação presencial se transformou em ações virtuais, a alienação ganhou ainda mais força entre os ouvintes e as músicas que eles escutam. A própria lógica das plataformas de streaming é de criar uma concorrência crescente entre os artistas, cenas e selos.

Atualmente tem fã de Rage Against The Machine bolsonarista e é mais fácil conhecer bandas de outros países do que do seu próprio bairro.

Por esses e outros motivos que “o mapa da música autoral” a iniciativa do jornalista Alexandre Bazzan é tão importante. Certamente que o mapa tem alguns problemas e limitações metodológicas, mas um mapa que consiga representar as principais casas de show pode ser uma ferramenta muito poderosa para o futuro da música no atual cenário caótico de São Paulo.

Como fazer um mapa da cena autoral de uma grande cidade? Essa iniciativa não deveria ser mais coletiva? Como dar conta do centro e das periferias das cidades? Como compartilhar essas informações?

Para responder essas e outras tantas perguntas nós recebemos para este episódio o Alexandre Bazzan.

Ele é jornalista e, em colaboração com sua namorada Isabela Torres, criou o mapa da música autoral. Começando por São Paulo a iniciativa já ganhou mais capitais e novas cenas.

Atualmente o projeto já colaborou para criar mapas de: Aracaju; Florianópolis, Goiânia, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza, com o objetivo de seguir e fazer de todas as capitais do Brasil.


Um dos assuntos mais importantes da conversa é como as cenas, bandas e ouvintes estão pensando e usando o mapa do Bazzan, e, principalmente, se eles pensam sobre esse processo. Até porque é muito visível no mapa do Bazzan a enorme concentração de casas de shows na Zona Oeste e Centro Expandido.

“(…) Acho que essa cena, involuntariamente, segue essa lógica de exclusão de São Paulo. De ser tudo no centro, da pessoa ter que pegar três, quatro busões, andar duas horas para chegar no trabalho e duas horas para voltar para casa. (…)

E acho que, de certa forma, a oferta de casas segue um pouco isso. Eu acho que quando... Acredito que muita gente às vezes abre até uma casa ali perto de onde ele mora, né? Não é uma questão... Às vezes muito, porque esses inferninhos aí, né? O cara não é um mega empresário e tal.

Se eu fizer uma casa na Zona Leste, qual é o movimento que vai ter? Apesar que, pô, a Zona Leste, cara, tem gente pra caramba, super populosa. Talvez seja uma conta até errada do empresário, mas eu acho que é uma conta que acaba sendo feita, sabe? De tentar deixar uma coisa mais central mesmo.”

Uma das grandes questões que apareceu até na repercussão do mapa foram os comentários sobre novos espaços que poderiam entrar no mapa e também sobre como colaborar e participar na produção de mapas como o feito por Bazzan em São Paulo.

Apesar dele reconhecer o interesse por construir alguma coletividade para desenvolver melhor os mapas e contribuir com alguma reflexão para a cena, ele parte para um realismo que acaba esbarrando em uma realidade menos unida.

“(Falando sobre a possibilidade de coletivizar o trabalho de mapear a música autoral) Cara, eu tenho minhas dúvidas (…)

As minhas experiências coletivas não são muito boas. Até funcionou, assim, em São Paulo de tentar captar a sugestão das pessoas, mas por exemplo, Vamos supor que eu tinha 100 bandas e foi pra 200 e tantas, né? Cara, de 100 e tantas sugestões, pode ter certeza que teve 300 assim e 200 não leu, não viu qual era a proposta, não entrou no projeto e tava falando lá, não, a minha banda não tá, assim, você vai ver uma banda que tem 10 anos de carreira e tal, ou é uma banda que nem é de São Paulo, sabe?

(…)

Eu acho que o mapa chegou onde chegou porque as pessoas se interessaram, começaram a contar umas pras outras e tal. Mas ao mesmo tempo, enquanto tem 10 pessoas igual você, pô, quero discutir, quero tentar expandir, deixar uma coisa mais legal, cara, tem 30 que falando assim, ah, putz, você viu a bosta que o cara fez lá…”

No geral acho que este episódio reafirma a necessidade de todos envolvidas com música, as bandas, artistas, casas de show e público da música autoral precisa avançar com este tipo de ferramenta para interferir nas políticas públicas e na economia criativa da cidade de São Paulo.

Comentem ai quem vocês gostariam que participasse do próximo episódio.

MF_vão


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