Tudo que é bom dura pouco. Pois bem, após um recesso fervilhante com os termômetros batendo os 35 graus célsius na cidade de São Paulo, retornamos para esse cafofo digital que em nada resfria os pensamentos.
E abrimos 2026 com as nossas já tradicionais tendências para o ano. Nosso trabalho de futurologia sempre acaba direcionando nossos projetos e, caso tenha reparado, algumas pesquisas e postagens nossas casam perfeitamente com nosso texto do ano passado.
Sabe qual é o segredo da 300Noise para uma leitura, com todo respeito, diferenciada? Bem, nossa equipe é composta de profissionais de diversas áreas e isso nos afasta um pouco dos delírios da publicidade e propaganda. Sabe como é. Temos artistas visuais, comunicadores, historiadores, geógrafos e sociólogos. E foi a união sinistra dessa equipe que resultou nesse apanhado de previsões que você está para ler.
Mas antes...
Esse ano teremos duas postagens sobre tendências + uma análise mais aprofundada sobre comportamento, estética e redes sociais que vai estar disponível apenas para nossos assinantes. Considere apoiar nosso trabalho, ajuda muito!
E agora, seguimos!
Raízes no Mainstream
A música de raízes sempre esteve presente no referencial criativo de estilos musicais derivados da globalização. Estamos falando da presença de instrumentos, interpolações e releituras, mas também do design, da identidade visual, do apelo simbólico.
Claro, muitas vezes esses elementos surgem como uma subcamada do produto principal, sendo uma referência incorporada ao processo criativo e não sua base estrutural. Também é importante determinar que música de raízes não passa de um termo genérico que pouco significa algo.
São contextos bem diversos entre o semba angolano e o samba brasileiro, entre a milonga e o bolero, frevo e maracatu. Cada estilo e país mantém de forma singular sua própria música dentro do mercado, das rádios e das mídias.
Um fenômeno mais evidente desse processo no Brasil contemporâneo é a ascensão do piseiro e seu desenvolvimento e retorno ao próprio forró. O estilo ganhou presença em charts e premiações, além de estar sendo consagrado em diversos formatos e mídias. O disco ganhador de um Latin GRAMMY, Dominguinho, de João Gomes, Mestrinho e Jota Pe, é um ótimo exemplo disso.
Com isso tudo em mente, é nítido que artistas estejam buscando suas raízes (reais ou simuladas) em projetos musicais e que isso apareça na espinha dorsal do disco, ou EP. Da mesma forma que Bad Bunny trouxe para o centro de seu último disco DtMF uma série de símbolos da música e cultura porto-riquenha, artistas podem embalar nesse processo.
E, claro, enquanto você lê esse texto, Luisa Sonza está lançando seu novo disco em parceria com Toquinho e Roberto Menescal. Bossa Sempre Nova é um trabalho que traz diversas releituras do estilo e estará disponível nas plataformas hoje mesmo (dia 13 de janeiro) às 21h.
Ascensão do mercado do sul global (especialmente China)
Muitas análises sobre tendências estão olhando para o Brasil (e com razão). Mas para além do já comentado interesse cultural e fashionista pelas nossas terras, há um macro cenário envolvendo o Sul Global.
Alguns pontos de atenção para entender a lógica do mercado:
1 - Quebra de confiança com o mercado dos Estados Unidos:
O efeito Trump é real! Você pode olhar para a dinâmica tarifária e sua lógica tão singular que é capaz de arrepiar os mais brilhantes doutores em economia. E certamente pode enxergar que a política externa do governo mina até mesmo a confiança de parceiros de longa data.
2 – Expansão de mercados criativos do sul global:
Seja através de investimento estrangeiro, doméstico, ou de expansão de mídia através de virais em plataformas. Os gigantes do entretenimento estão de olho no sul global e expandindo seus catálogos com foco nele. Reparou na quantidade de Dizis (novelas turcas) na Globoplay? Além disso, os c-dramas chineses estão ocupando cada vez mais espaço. A música certamente não ficará de fora dessa lógica.
3 – Redescoberta das próprias raízes
Se apoiando na tendência anterior, há certamente um apelo cultural gigante em conectar a música em seu contexto de produção e trajetória. E isso está bem alinhado com o aprofundamento da narrativa e nas dinâmicas de poder. O sul global tem suas enormes diferenças culturais, sociais e políticas, mas nutre uma relação bem particular entre si: o processo de colonização.
Para aprofundar um pouco a discussão, recomendamos um texto sobre o Rap Chinês.
E, para uma discussão mais geopolítica sobre o Sul Global, recomendamos o trabalho do sempre certeiro o mundo está uma loucura
(Franqueza Maximalista)
A queda do movimento clean girl é derivada de dois fatores: 1 - suprimento de personalidade, ou padronização estética 2 - dificuldade de demonstrar pertencimento através da ausência de elementos simbólicos que denotem esse recorte social. A pasteurização de elementos materiais cria barreiras mais sutis.
O movimento “New Ugly” surgiu no final dos anos 2010 no design da Ásia Oriental, particularmente na China, como uma reação, ou contravenção ao minimalismo, visual clean e estéticas polidas.
pesquisadora Jiarui Wang, baseada em Londres, aprofundou a compreensão do movimento em sua dissertação “Brutalism, Maximalism and Amateurism of The New Ugly in Chinese Graphic Design”, mapeando suas raízes estéticas. O “New Ugly” se inspira em embalagens recheadas de informações, imagens e cores.
É inevitável entender que uma ode ao “brega” e uma construção de autenticidade pela quebra de padrão ou previsibilidade está nos horizontes. Uma contraposição direta ao visual limpo, aos elementos milimetricamente calculados e ao “instagramável”. Claro, as camadas, texturas, movimentos e sobreposições surgem para atestar humanidade e um firmamento estético contra a I.A. e suas corporações vampirescas.
Em 2026, não há mais espaço para a ironia ou muito menos para a carga pós irônica que definiu o ano passado através de brainrots e derivados. O aprofundamento de crises políticas no ocidente estreita também o caminho da postura criativa e de quem está ansiando por consumir algo genuinamente novo.
Escatologia Cyberpunk
O fim do mundo já criou ótimos álbuns. Historicamente, diversos estilos musicais capturaram zeitgeists de períodos e lugares. Um bom exemplo disso foi o próprio Thrash metal dos anos 80 nos Estados Unidos e Alemanha. Produzido por jovens que cresceram na Guerra Fria, o estilo incorporou elementos da paranoia nuclear, o presságio pelo estopim de uma guerra, os cenários de um mundo devastado e armas biológicas.
Com o fim da União Soviética e o estabelecimento de uma sociedade em que o capitalismo triunfou, o estilo mingou e a atenção se voltou para o new metal, para o grunge e para o rap. As bandas, deixando de ver sentido em cantar sobre arsenais nucleares e usarem cintos com munição de AK-47, passaram a transformar sua sonoridade.
Em 2026 temos o sentimento de descrença no próprio futuro, a escalada do uso de I.A. no campo da música, a ascensão do autoritarismo no ocidente e um discurso de bipolaridade mundial que já está sendo lida por alguns como uma Guerra Fria 2.0. É um caldeirão fervilhante de maus presságios.
Isso significa mais thrash metal? Não! Mas significa que bandas e artistas devem acabar utilizando essa desesperança e sentimento apocalíptico em suas produções e processos criativos. Dentro de cenas musicais underground, há um espaço ainda maior para trabalhar o fim do mundo, seja pelas máquinas, seja pela tecnologia militar, ou pela incerteza do amanhã.
Agora queremos saber de você:
Enquanto a parte dois não chega, queremos iniciar uma discussão sobre o que está acontecendo no mercado da música e também em outros mercados. Deixe uma mensagem pra gente e vamos somar!
HORA DO JABA!
Foi mal a publi, precisamos pagar as contas e olha que curioso, temos roupitchas maravilhosas em queima de estoque da última coleção porque logo mais vem próxima (sem spoilers).
Dá uma olhada na nossa lojinha. Tem produtos com até 42% off, como dizem os shoppings.










